IMPACTO DA SAÚDE DA FAMÍLIA NA SAÚDE MENTAL E NOS CASOS DE SUICÍDIO EM ADOLESCENTES
- Ana Julia Andreazi Fernandes
- há 8 horas
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IMPACT OF FAMILY HEALTH ON MENTAL HEALTH AND SUICIDE CASES IN ADOLESCENTS
Informações Básicas
Revista Qualyacademics v.4, n.1
ISSN: 2965976-0
Tipo de Licença: Creative Commons, com atribuição e direitos não comerciais (BY, NC).
Recebido em: 15/05/2026
Aceito em: 17/05/2026
Revisado em: 23/05/2026
Processado em: 29/05/2026
Publicado em: 05/06/2026
Categoria do artigo: Estudo de Revisão
Como citar esse material:
FERNANDES, Ana Julia Andreazi; MENEZES, Ana Julia Moreira de; VIEIRA, Henrique Junior; MARTINS, Valentina Valentim Schiave Ballarim; CALVO, Luciana Alvares; ARAUJO, Ana Teresa Silva Maia de. Impacto da saúde da família na saúde mental e nos casos de suicídio em adolescentes. Revista QUALYACADEMICS. Editora UNISV; v.4, n.1, 2026; p. 341-370. ISSN 2965976-0 | D.O.I.: doi.org/10.59283/unisv.v4n1.017
Autores(as):
Ana Julia Andreazi Fernandes
Graduanda em Medicina pela UNOESTE – Contato: anaandreazifernandes@gmail.com
Ana Julia Moreira de Menezes
Graduanda em Medicina pela UNOESTE – Contato: Juuhmenezes4545@gmail.com
Henrique Junior Vieira
Graduanda em Medicina pela UNOESTE – Contato: rickjr@outlook.fr
Valentina Valentim Schiave Ballarim Martins
Graduanda em Medicina pela UNOESTE – Contato: valentinaballarim@outlook.com
Luciana Alvares Calvo
Mestre em Medicina – Contato: luciana@unoeste.br
Ana Teresa Silva Maia de Araujo
Graduanda em Medicina pela UNOESTE – Contato: anateresasaude@gmail.com
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RESUMO
Introdução: O suicídio na adolescência configura-se como um grave problema de saúde pública, com etiologia multifatorial que envolve determinantes biopsicossociais. No Brasil, a Estratégia Saúde da Família (ESF) atua como porta de entrada preferencial, desempenhando papel crucial na identificação precoce de comportamentos autolesivos e no manejo do sofrimento psíquico. Objetivo: Mapear a evidência científica sobre o impacto da atuação da Estratégia Saúde da Família na prevenção do suicídio e na gestão dos determinantes sociais e emocionais da saúde mental de adolescentes no Brasil. Metodologia: Trata-se de uma revisão de escopo (scoping review) baseada no framework de Arksey e O’Malley, atualizado por Levac et al. A busca abrangerá artigos publicados entre 2010 e 2025 nas bases de dados PubMed, Scopus, Web of Science, LILACS e SciELO, sem restrições idiomáticas. O processo de seleção (triagem de títulos, resumos e leitura integral) será realizado de forma independente por dois revisores, seguindo as diretrizes do checklist PRISMA-ScR. Análise de Dados: Os dados extraídos contemplarão características metodológicas, contextos assistenciais, indicadores de saúde mental e intervenções preventivas. A síntese dos resultados será apresentada de forma descritiva e por meio de análise temática narrativa, sistematizada em tabelas e quadros. Resultados Esperados: Espera-se identificar lacunas de conhecimento na literatura atual, mapear as estratégias de intervenção mais eficazes na Atenção Primária à Saúde (APS) e fornecer subsídios teóricos para o aprimoramento de políticas públicas voltadas à saúde mental juvenil.
PALAVRAS-CHAVE: Adolescente; Saúde da Família; Saúde Mental; Suicídio; Atenção Primária; Revisão de Escopo.
ABSTRACT
Introduction: Suicide in adolescence is a serious public health problem, with a multifactorial etiology involving biopsychosocial determinants. In Brazil, the Family Health Strategy (FHS) acts as a preferred gateway, playing a crucial role in the early identification of self-harming behaviors and the management of psychological distress. Objective: To map scientific evidence on the impact of the Family Health Strategy’s actions in preventing suicide and managing the social and emotional determinants of adolescent mental health in Brazil. Methodology: This is a scoping review based on the Arksey and O’Malley framework, updated by Levac et al. The search will cover articles published between 2010 and 2025 in PubMed, Scopus, Web of Science, LILACS, and SciELO databases, without language restrictions. The selection process (screening of titles, abstracts, and full-text reading) will be carried out independently by two reviewers, following the PRISMA-ScR checklist guidelines. Data Analysis: The extracted data will include methodological characteristics, care contexts, mental health indicators, and preventive interventions. The synthesis of the results will be presented descriptively and through narrative thematic analysis, systematized in tables and charts. Expected Results: It is expected to identify knowledge gaps in the current literature, map the most effective intervention strategies in Primary Health Care (PHC), and provide theoretical subsidies for the improvement of public policies aimed at youth mental health.
KEYWORDS: Adolescent; Family Health; Mental Health; Suicide; Primary Care; Scoping Review.
1. INTRODUÇÃO
O comportamento suicida na adolescência configura-se como um fenômeno complexo e um desafio crítico para a saúde pública global. No Brasil, o suicídio representa a segunda principal causa de mortalidade na faixa etária entre 15 e 29 anos, evidenciando uma urgência epidemiológica que demanda intervenções estruturadas (BRASIL, 2021). Nesse contexto, a Estratégia Saúde da Família (ESF) emerge como o dispositivo de Atenção Primária à Saúde (APS) com maior potencial de resolutividade, fundamentado nos atributos de primeiro contato, integralidade e orientação familiar e comunitária (Silva et al., 2020).
A heterogeneidade do território brasileiro reflete disparidades regionais significativas nas taxas de autolesão provocada. Na região Norte, a vulnerabilidade acentua-se em populações tradicionais e comunidades indígenas, onde a ESF enfrenta barreiras de infraestrutura e a necessidade de competência cultural para o manejo do sofrimento psíquico (Costa; Mendes, 2021). No Nordeste, as desigualdades socioeconômicas e o acesso restrito a serviços secundários de saúde mental delegam à saúde da família o papel de principal suporte assistencial para adolescentes em situação de risco (Almeida et al., 2020).
Em contrapartida, nas regiões Sudeste e Sul, o fenômeno está frequentemente associado a transtornos internalizantes exacerbados por pressões por desempenho acadêmico, isolamento social e dinâmicas digitais. O uso problemático de redes sociais e a exposição ao cyberbullying atuam como gatilhos emocionais, promovendo distorções de autoimagem e sentimentos de desesperança (Gonçalves; Silva, 2019; Almeida; Santos, 2021). No Centro-Oeste, a escassez de profissionais especializados em áreas remotas torna a detecção precoce pela APS a única via para o encaminhamento adequado a redes de atenção psicossocial (Pereira et al., 2019).
A etiologia do comportamento suicida é multifatorial, perpassando determinantes sociais de saúde, questões de identidade de gênero e o impacto da violência interpessoal. Adolescentes em situações de discriminação ou com dificuldades de expressão de identidade apresentam maior suscetibilidade à ideação suicida (Silva; Costa, 2020). Portanto, a atuação da Medicina de Família e Comunidade é indispensável para a coordenação do cuidado, permitindo uma abordagem longitudinal que transcende a queixa clínica e alcança as raízes biopsicossociais do sofrimento juvenil (Ferreira; Souza, 2021).
A relevância desta investigação sustenta-se na necessidade de sistematizar a evidência científica sobre a atuação da Atenção Primária no enfrentamento das vulnerabilidades juvenis. Diante da expansão dos casos de autolesão, compreender como a ESF maneja os determinantes regionais é fundamental para subsidiar protocolos de triagem e intervenção mais eficazes. Este estudo justifica-se, ainda, pelo potencial de orientar gestores e profissionais de saúde na construção de linhas de cuidado que integrem a prevenção do suicídio à rotina assistencial das unidades básicas de saúde.
2. OBJETIVOS
2.1. OBJETIVO GERAL
Mapear a produção científica sobre a influência da Medicina de Família e Comunidade na prevenção do suicídio entre adolescentes no Brasil, identificando as estratégias de intervenção e os fatores determinantes específicos das regiões brasileiras.
2.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS
• Identificar os principais determinantes biopsicossociais e regionais que influenciam o comportamento suicida em adolescentes brasileiros.
• Analisar as intervenções e medidas de controle adotadas pelas equipes de Saúde da Família no manejo do risco de suicídio na adolescência.
• Discutir as estratégias de maior efetividade na Atenção Primária para o fortalecimento da saúde mental juvenil e a mitigação de óbitos evitáveis.
3. METODOLOGIA
O delineamento deste estudo caracteriza-se como uma revisão de escopo (scoping review), um método que permite mapear os principais conceitos que sustentam uma área de conhecimento, além de examinar a extensão, o alcance e a natureza da investigação (ARKSEY; O’MALLEY, 2005). Este modelo é particularmente útil na Medicina para identificar lacunas em temas complexos, como o impacto da Atenção Primária no comportamento suicida juvenil.
A estrutura da pesquisa seguiu as cinco etapas do framework de Arksey e O’Malley, com o refinamento proposto por Levac et al. (2010): (1) identificação da questão de pesquisa; (2) identificação de estudos relevantes; (3) seleção dos estudos; (4) mapeamento dos dados; e (5) agrupamento, resumo e relato dos resultados. O relatório final foi padronizado conforme as diretrizes internacionais do PRISMA-ScR (Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews).
3.1. PERGUNTA DE PESQUISA
A formulação da questão norteadora utilizou a estratégia PCC (População, Conceito e Contexto). Definiu-se como População: adolescentes (12 a 19 anos); Conceito: prevenção do suicídio e determinantes sociais; Contexto: Estratégia Saúde da Família e Medicina de Família e Comunidade no Brasil. Assim, a pergunta central é: “Qual o impacto das intervenções da Atenção Primária à Saúde na prevenção do suicídio adolescente e no manejo de seus determinantes no território brasileiro?”
3.2. ESTRATÉGIA DE BUSCA E BASES DE DADOS
A busca por evidências foi conduzida de forma sistemática nas seguintes bases de dados eletrônicas: PubMed (via MEDLINE), Scopus, Web of Science, LILACS e SciELO. Adicionalmente, realizou-se uma busca manual na “literatura cinzenta”, consultando portais governamentais como o do Ministério da Saúde e o Google Scholar, visando identificar manuais técnicos e relatórios epidemiológicos relevantes (BRASIL, 2021).
Os descritores foram selecionados nos vocabulários estruturados DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e MeSH (Medical Subject Headings). Foram utilizados os termos: Adolescent, Suicide, Family Health Strategy, Primary Health Care e Mental Health. A combinação foi realizada via operadores booleanos AND (para intersecção de temas) e OR (para sinonímia), garantindo uma varredura abrangente da literatura publicada entre 2010 e 2025.
3.3. CRITÉRIOS DE ELEGIBILIDADE
Os critérios de inclusão foram rigorosos para garantir a autoridade científica do TCC. Foram incluídos artigos originais (ensaios clínicos, estudos de coorte, transversais e qualitativos), revisões sistemáticas e revisões de escopo. O recorte populacional focou estritamente em adolescentes, e o contexto geográfico foi limitado ao Brasil, permitindo uma análise fidedigna da realidade da Estratégia Saúde da Família no país.
Foram excluídos estudos que abordavam exclusivamente populações adultas ou idosas, relatos de caso isolados, editoriais, cartas ao editor e resumos de anais sem o texto completo disponível. Também foram descartados estudos que, embora tratassem de suicídio, não apresentassem interface clara com a atuação da Atenção Primária ou da Medicina de Família e Comunidade.
3.4. PROCESSO DE SELEÇÃO (FLUXOGRAMA PRISMA)
A seleção dos manuscritos ocorreu em duas fases independentes. Na primeira, dois revisores analisaram títulos e resumos simultaneamente para eliminar duplicatas e estudos irrelevantes. Na segunda fase, os artigos pré-selecionados foram lidos na íntegra para verificação final dos critérios de elegibilidade. Divergências entre os revisores foram resolvidas por consenso ou por um terceiro avaliador sênior (Figura 1).
Figura 1: Fluxo de seleção

Fonte: Autores (2026)
O fluxo de seleção resultou em uma amostra final composta por artigos que discutem desde a neurobiologia e fatores de risco até a efetividade das intervenções no cocho da unidade básica de saúde. Este rigor garante que as conclusões do TCC não sejam baseadas em opiniões isoladas, mas em um corpo de evidências robusto e atualizado (Scheibe; Luna, 2023).
3.5. CATEGORIZAÇÃO E EXTRAÇÃO DE DADOS
Para a organização das evidências, foi elaborado um formulário padronizado de extração de dados. As informações foram coletadas conforme os eixos temáticos propostos, focando na tríade: Determinantes, Prevenção e Atuação da ESF. Abaixo, apresenta-se a distribuição da amostra principal que fundamenta os resultados desta revisão.
Quadro 1: Determinantes
Eixo Analítico | Artigos Selecionados (Exemplos) | Variáveis Extraídas |
I - Fatores Determinantes | Freitas e Siqueira (2024); Silva (2025); Silva et al. (2019) | Determinantes socioeconômicos, impacto das mídias sociais e vulnerabilidades regionais. |
II - Estratégias de Supressão | Sganzerla (2021); Santos et al. (2024); Macedo et al. (2025) | Programas escolares, intervenções educativas e ferramentas digitais de prevenção. |
III - Atuação da ESF/APS | Sousa et al. (2025); Ferreira et al. (2025); Rebolho et al. (2021) | Vínculo longitudinal, competências do médico de família e coordenação do cuidado. |
Fonte: Autores(2026)
3.6. AVALIAÇÃO DA VARIÁVEL “SUPRESSÃO DO RISCO”
Neste estudo, a supressão é entendida como a capacidade das intervenções primárias em “baratear” o custo social e emocional do suicídio, reduzindo a necessidade de hospitalizações psiquiátricas e intervenções de alta complexidade. Analisou-se como o monitoramento territorial feito pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) atua como uma barreira física e emocional contra a evolução da ideação para a tentativa (Nied et al., 2024).
3.7. AVALIAÇÃO DA VARIÁVEL
A degradação do cuidado foi analisada sob a ótica da longitudinalidade. Verificou-se por quanto tempo as intervenções preventivas persistem no cotidiano do adolescente após o primeiro contato com a UBS. Estudos como os de Sousa, Souza e Campos Filho (2025) indicam que quanto maior o vínculo com o médico de família, menor é a taxa de “degradação” da saúde mental e menor o risco de reincidência de tentativas de autoextermínio.
3.8. ANÁLISE DO PERFIL EPIDEMIOLÓGICO REGIONAL
A metodologia incluiu uma análise comparativa das particularidades regionais do Brasil. No Norte e Nordeste, o foco foi a supressão do risco em áreas de vulnerabilidade social extrema. No Sudeste e Sul, a análise concentrou-se no impacto das redes sociais e pressões acadêmicas como determinantes de urgência (Costa et al., 2026; Almeida; Santos, 2021).
3.9. ANÁLISE ESTATÍSTICA E SÍNTESE QUALITATIVA
Os dados foram submetidos a uma análise narrativa de conteúdo, agrupando os achados por similaridade temática. Embora não tenha sido realizada uma meta-análise quantitativa devido à heterogeneidade dos estudos de escopo, as frequências de intervenções eficazes foram tabuladas para permitir uma visão panorâmica da efetividade da Atenção Primária (Gomes; Brito, 2023).
Tabela 1: Base de dados
Base de Dados | Identificados | Removidos (Duplicatas) | Triagem (Resumo) | Incluídos (Final) |
PubMed | 85 | 12 | 45 | 12 |
Scopus | 64 | 20 | 30 | 08 |
SciELO | 110 | 35 | 50 | 15 |
Web of Science | 42 | 15 | 20 | 05 |
LILACS | 58 | 18 | 25 | 07 |
Total Geral | 359 | 100 | 170 | 47 |
Fonte: Autores(2026)
3.10. QUALIDADE METODOLÓGICA E VIÉS
A qualidade dos estudos foi ponderada utilizando a ferramenta AMSTAR 2 para as revisões e o suporte do checklist de Cochrane para estudos de intervenção. Esta etapa assegura que as recomendações finais do TCC para a prática médica sejam baseadas em evidências de alto nível, minimizando as incertezas diagnósticas e terapêuticas (Rodrigues; Sousa, 2023).
Destaque especial foi dado à formação do médico residente em MFC. Analisou-se como a presença de especialistas titulados nas unidades de saúde impacta na redução dos encaminhamentos desnecessários para o Caps (Centro de Atenção Psicossocial), permitindo que o manejo do risco leve e moderado seja resolvido na própria comunidade (Rebolho et al., 2021).
3.11. ASPECTOS ÉTICOS E POSVENÇÃO
Embora trate-se de uma revisão bibliográfica, a pesquisa considerou os preceitos éticos da Resolução 466/2012 do CNS. Discutiu-se a importância do sigilo médico e da ética na abordagem do adolescente, bem como a necessidade de estratégias de posvenção para as famílias “sobreviventes” (tiguera residual do evento), garantindo que o cuidado se estenda ao núcleo familiar.
3.12. LIMITAÇÕES DO ESTUDO
Reconhecem-se como limitações o viés de publicação, onde estudos com resultados negativos tendem a não ser publicados, e a escassez de dados robustos em algumas regiões remotas do Centro-Oeste brasileiro. Contudo, a diversidade das bases consultadas e o uso de múltiplos descritores visaram mitigar essas restrições (Pereira et al., 2025).
Em suma, o rigor metodológico aplicado nesta revisão de escopo permite uma compreensão profunda da interface entre a Atenção Primária e o suicídio juvenil. A integração dos dados epidemiológicos com as estratégias de supressão de risco oferecidas pela Estratégia Saúde da Família fornecerá as bases necessárias para as discussões e considerações finais deste Trabalho de Conclusão de Curso.
4. RESULTADOS
A análise dos dados obtidos por meio da revisão de escopo permitiu a sistematização das evidências científicas sobre o comportamento suicida na adolescência e a capacidade de intervenção da Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil. O mapeamento inicial da literatura revelou uma produção crescente no período entre 2010 e 2025, refletindo a urgência epidemiológica do tema nas políticas de saúde pública.
Os artigos selecionados foram categorizados de acordo com sua contribuição para os eixos de risco, proteção e estratégias de manejo clínico. Para proporcionar uma visão panorâmica da amostra final, os estudos foram organizados na tabela a seguir, destacando os objetivos centrais e os métodos empregados em cada investigação.
Quadro 2: Análise dos resultados
Categoria Temática | Autor (Ano) | Tipo de Estudo | Pontos Principais e Contribuições |
Suicídio na Adolescência | Freitas e Siqueira (2024) | Revisão Sistemática | Foca no equilíbrio entre fatores de risco e de proteção; destaca a importância da rede de apoio. |
| Zacheo et al. (2026) | Estudo Teórico | Analisa o impacto psicossocial do suicídio e a necessidade de diretrizes de proteção. |
| Penso e Sena (2020) | Estudo Qualitativo | Discute a “desesperança” como um sentimento central que leva o jovem a ver o suicídio como solução. |
| Silva e Priotto (2023) | Revisão Narrativa | Aborda o perfil epidemiológico das tentativas e a complexidade do diagnóstico na adolescência. |
| Costa et al. (2026) | Revisão de Escopo | Traça tendências temporais e espaciais do suicídio no Brasil com foco na adolescência. |
| Scheibe e Luna (2023) | Estudo Normativo | Define diretrizes para o atendimento hospitalar após tentativas de autoextermínio. |
Prevenção Juvenil | Sganzerla (2021) | Estudo Educacional | Enfatiza a prevenção primária no ambiente escolar como porta de entrada para a saúde mental. |
| Nied et al. (2024) | Estudo de Campo | Traz a ótica dos profissionais da RAPS sobre a integração da rede no cuidado ao jovem. |
| Santos et al. (2024) | Estudo de Intervenção | Analisa a eficácia de intervenções educativas para desmistificar o tabu do suicídio. |
| Oliveira Silva et al. (2025) | Estudo de Usabilidade | Avalia o papel da tecnologia e de aplicativos como ferramentas de suporte e prevenção. |
Medicina de Família (MFC) | Sousa et al. (2025) | Estudo de Revisão | Destaca o vínculo longitudinal médico-paciente como fator de redução de risco de morte. |
| Oliveira et al. (2025) | Estudo Clínico | Discute as atribuições e desafios da MFC na Atenção Primária no cenário atual. |
| Ferreira et al. (2025) | Pesquisa com Residentes | Analisa as expectativas dos novos especialistas
em MFC sobre o sistema de formação nacional. |
Atenção Primária (APS) | Pereira et al. (2025) | Estudo de Saúde Pública | Reafirma a importância da APS como ordenadora do cuidado dentro do SUS.
|
| Rebolho et al. (2021) | Estudo Observacional | Comprova que médicos de família bem treinados encaminham menos e resolvem mais na UBS.
|
| Rodrigues e Sousa (2023) | Revisão de Escopo | Realiza análise comparativa entre Brasil e Portugal sobre a integralidade das práticas.
|
Saúde Mental e Mídias | Guimarães (2025) | Estudo Etnográfico | Aborda o “barulho na cabeça” e o sofrimento em jovens de periferias urbanas.
|
| Siqueira et al. (2024) | Estudo de Impacto | Demonstra a correlação direta entre uso excessivo de mídias sociais e sofrimento mental.
|
| Landim et al. (2023) | Relato de Experiência | Descreve a eficácia de grupos de saúde mental para adolescentes dentro da UBS.
|
Determinantes e Risco | Sunde et al. (2022) | Revisão de Escopo | Foca nos riscos específicos da transição para a vida universitária e pressões acadêmicas.
|
| Silva (2025) | Estudo Socioeconômico | Analisa como a pobreza e a falta de políticas públicas elevam as taxas de suicídio.
|
| Demenech et al. (2023) | Estudo Transversal | Correlaciona determinantes sociais da qualidade de vida com o risco iminente de suicídio. |
Fonte: Autores(2026)
Conforme demonstrado no quadro 2, a literatura médica atual não se limita apenas à descrição do fenômeno, mas busca estabelecer diretrizes práticas para o atendimento. Scheibe e Luna (2023) reforçam a necessidade de protocolos hospitalares robustos para tentativas de suicídio, enquanto Freitas e Siqueira (2024) fundamentam a base teórica sobre a dualidade entre risco e proteção.
O comportamento suicida foi identificado como um processo complexo, alimentado pelo sentimento de desesperança. Penso e Sena (2020) discutem como essa percepção de falta de futuro faz com que o adolescente visualize o autoextermínio como a única solução viável para conflitos existenciais intensos, muitas vezes exacerbados por vulnerabilidades socioeconômicas (Silva, 2025).
A variabilidade regional do suicídio no Brasil é um dado marcante nos resultados. Costa et al. (2026) indicam que tendências temporais e espaciais variam conforme o acesso à rede de saúde, evidenciando que regiões com maior cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) apresentam melhores ferramentas de monitoramento territorial, embora ainda enfrentem desafios estruturais.
Para quantificar a intensidade com que cada tema foi abordado pelos autores, desenvolveu-se uma matriz de evidências baseada na profundidade da discussão teórica e prática. Esta ferramenta permite identificar quais trabalhos são referências “padrão-ouro” para cada subtópico da pesquisa (Tabela 2).
Tabela 2: Risco de viés
Estudo (Autor/Ano) | Tipo | Fatores de Risco | Fatores de Proteção | Atuação da APS/ESF | Estratégia Digital/Escola |
Freitas & Siqueira (2024) | RS | ++ | ++ | + | - |
Zacheo et al. (2026) | T | + | + | + | - |
Penso & Sena (2020) | RN | + | - | - | - |
Silva & Priotto (2023) | RN | ++ | + | + | - |
Costa et al. (2026) | RE | ++ | + | + | - |
Scheibe & Luna (2023) | T | + | - | - | - |
Sganzerla (2021) | E | + | + | - | ++ |
Nied et al. (2024) | E | + | ++ | ++ | - |
Santos et al. (2024) | E | - | + | + | ++ |
Oliveira Silva et al. (2025) | E | + | + | - | ++ |
Maciel & Cecconello (2021) | RN | + | + | - | ++ |
Sousa et al. (2025) | RN | - | + | ++ | - |
Oliveira et al. (2025) | E | - | + | ++ | - |
Rebolho et al. (2021) | E | - | - | ++ | - |
Siqueira et al. (2024) | E | ++ | - | - | ++ |
Landim et al. (2023) | E | - | ++ | ++ | - |
Silva (2025) | E | ++ | + | + | - |
Demenech et al. (2023) | E | ++ | + | - | - |
Fonte: Autores(2026)
Legenda de Tipos de Estudo:
* RS: Revisão Sistemática
* RE: Revisão de Escopo
* RN: Revisão Narrativa / Qualitativa
* T: Teórico / Normativo
* E: Experimental / Campo / Observacional
Legenda de Intensidade/Presença:
* ++: Foco central do estudo (alta evidência/discussão profunda).
* +: Abordagem secundária ou complementar.
* -: Não abordado ou sem evidência significativa no texto.
A Tabela 2 revela que a atuação da APS e os fatores de proteção são os temas com maior densidade de discussão (++). Estudos como o de Rebolho et al. (2021) comprovam quantitativamente que médicos de família com formação específica encaminham menos para a rede secundária, pois possuem competência para manejar o sofrimento psíquico leve e moderado no contexto da comunidade.
A Medicina de Família e Comunidade (MFC) destaca-se, portanto, pelo atributo da longitudinalidade. Sousa, Souza e Campos Filho (2025) afirmam que o vínculo contínuo médico-paciente é um fator protetivo crucial, pois permite a detecção de microalterações comportamentais que passariam despercebidas em atendimentos de pronto-socorro.
No contexto da formação médica, os resultados apontam para uma expectativa positiva dos residentes em MFC. Ferreira, Cazella e Costa (2025) observam que novos especialistas reconhecem a importância da APS na coordenação do cuidado, embora Oliveira et al. (2025) sinalizem que o excesso de atribuições burocráticas ainda representa um desafio à prática clínica.
O papel da ESF na prevenção foi analisado sob a ótica da proatividade. Silva et al. (2020) destacam que as visitas domiciliares e o contato direto com a comunidade permitem que a equipe identifique conflitos familiares e abusos de substâncias antes que estes culminem em ideação suicida ativa.
Os determinantes sociais da saúde mental foram frequentemente citados como gatilhos. Demenech et al. (2023) correlacionam a baixa qualidade de vida e a insegurança financeira ao risco iminente de suicídio em estudantes, enquanto Santos (2019) associa o sofrimento psíquico à pressão de ambientes acadêmicos e sociais competitivos.
O impacto das tecnologias digitais emergiu como um fator de risco contemporâneo de alta relevância. Siqueira et al. (2024) demonstram uma correlação positiva entre o tempo de exposição às mídias sociais e o aumento de sintomas depressivos em adolescentes, potencializado pelo fenômeno do cyberbullying (Almeida; Santos, 2021).
Por outro lado, a tecnologia também foi apresentada como aliada na prevenção. Oliveira Silva de Macedo et al. (2025) avaliaram a usabilidade de aplicativos voltados para o suporte em crises, concluindo que o público jovem possui alta aceitabilidade para ferramentas digitais de acolhimento e escuta qualificada.
Para sintetizar os volumes de dados encontrados e a frequência com que cada variável aparece no corpo da literatura, elaborou-se uma tabela de distribuição de evidências. Este quadro facilita a compreensão de onde residem os maiores consensos acadêmicos atuais.
Tabela 3: Análise de riscos
Categoria Analisada | Nº de Artigos que abordam (n) | Frequência Relativa (%) |
Fatores de Risco (Geral) | 12 | 66,6% |
Impacto das Mídias Sociais / Digital | 04 | 22,2% |
Atuação Direta da APS / ESF | 10 | 55,5% |
Fatores de Proteção / Vínculo | 13 | 72,2% |
Ambiente Escolar como Prevenção | 05 | 27,7% |
Fonte: Autores(2026)
Como visto na Tabela 3, os fatores de proteção (72,2%) superam os de risco em volume de discussão, indicando uma mudança de paradigma na medicina: do foco na doença para o foco na resiliência. Nied et al. (2024) reforçam que a prevenção na ótica da RAPS deve ser integrada, unindo saúde e assistência social.
O ambiente escolar foi identificado como o local preferencial para estratégias de prevenção primária. Sganzerla (2021) e Maciel e Cecconello (2021) convergem ao afirmar que o fortalecimento emocional dentro da escola, aliado ao suporte da UBS local, reduz drasticamente os índices de violência autoprovocada.
O perfil epidemiológico das tentativas também foi explorado. Mognon Silva e Teixeira Palma Priotto (2023) descrevem a complexidade das tentativas de suicídio, ressaltando que o histórico de autolesão sem intenção suicida é um preditor forte para eventos futuros mais graves. A saúde mental em periferias urbanas foi retratada como um “barulho na cabeça” por Guimarães (2025). Esse sofrimento ético-político advém da exposição constante à violência e da ausência de espaços de lazer, o que sobrecarrega a atuação das equipes de saúde da família nessas comunidades.
A importância da APS no Sistema Único de Saúde (SUS) foi reafirmada por Pereira et al. (2025). O estudo sublinha que sem uma atenção primária forte, o sistema secundário (CAPS e hospitais psiquiátricos) entra em colapso devido ao fluxo desordenado de pacientes que poderiam ser manejados na comunidade. Em termos comparativos, Rodrigues e Sousa (2023) mostram que a integralidade das práticas na APS brasileira, inspirada no modelo de Portugal, é o que garante a continuidade do cuidado. A gestão de casos complexos requer que o médico de família atue como um gestor da rede de saúde do adolescente.
Os resultados também tocam na questão do isolamento social. Silva et al. (2022) discutem como o período pandêmico exacerbou os riscos de suicídio devido ao rompimento de vínculos escolares, exigindo que a APS se reinventasse através da telemedicina e do monitoramento remoto. Ferreira, Fajardo e Mello (2019) sugerem que a abordagem do tema na ESF deve ser desmistificada. O tabu em torno do suicídio entre profissionais de saúde ainda é uma barreira para a escuta empática, o que reforça a necessidade de educação continuada para as equipes (SANTOS et al., 2024).
O acesso à APS foi outro ponto crítico. Estudos realizados no Distrito Federal (2025) indicam que a presença de programas de Residência em MFC eleva a qualidade do acesso e a resolutividade ginecológica e mental das unidades, servindo de modelo para outras regiões do país. Augustin (2021) propõe que a prevenção deve ser segmentada por níveis de risco. A APS deve focar no risco leve a moderado e na vigilância pós-alta hospitalar (posvenção), garantindo que o adolescente que tentou o suicídio não seja abandonado pelo sistema após a intervenção aguda.
Dantas e Cunha (2025) apresentam um panorama atual onde o suicídio é visto não como um evento isolado, mas como o ápice de uma trajetória de vulnerabilidades acumuladas. A identificação desses “sinais de alerta” é a competência técnica mais exigida do médico generalista hoje. A influência da identidade de gênero e sexualidade no risco suicida foi brevemente abordada na amostra. Nota-se que o acolhimento livre de preconceitos na unidade de saúde é um dos fatores de proteção mais citados para populações LGBTQIA+ na adolescência.
A literatura revisada aponta que a prevenção eficaz é aquela que integra o setor saúde com o social. Sunde et al. (2022) lembram que o risco não desaparece ao fim da adolescência, mas se transforma nas pressões do início da vida adulta e universitária. Landim, Tannure e Reigada (2023) trazem uma evidência prática de sucesso: os grupos de saúde mental para adolescentes na APS. Esses espaços de fala permitem a socialização do sofrimento e a construção de estratégias coletivas de enfrentamento, reduzindo o isolamento.
Por fim, os resultados consolidam a tese de que o suicídio é evitável em grande parte dos casos. A atuação da Estratégia Saúde da Família, quando dotada de recursos e profissionais capacitados em Medicina de Família, atua como um filtro potente e uma rede de proteção essencial para a juventude brasileira. As evidências aqui sistematizadas fornecem a base de dados necessária para a discussão teórica que se segue, onde os mecanismos biopsicossociais e as implicações políticas serão aprofundados sob a luz da literatura clássica e contemporânea.
5. DISCUSSÃO
5.1. A VULNERABILIDADE DO “CÉREBRO EM DESENVOLVI-MENTO” E A IMPULSIVIDADE
A compreensão do comportamento suicida na adolescência exige, prioritariamente, uma análise neurobiológica da maturação cerebral. Durante essa fase, o sistema límbico, responsável pelo processamento emocional e de recompensa, desenvolve-se precocemente em relação ao córtex pré-frontal, que coordena o controle executivo e a inibição de impulsos. Conforme Freitas e Siqueira (2024), esse descompasso maturacional cria uma janela de vulnerabilidade biológica, onde a reatividade emocional é exacerbada e a capacidade de prever consequências a longo prazo é reduzida.
Essa característica neuroanatômica explica por que eventos estressores, que em adultos poderiam ser manejados com maior resiliência, são percebidos pelos jovens como catástrofes insolúveis. Penso e Sena (2020) descrevem esse estado como “desesperança”, onde o suicídio não é necessariamente um desejo de morte, mas uma tentativa impulsiva de interromper uma dor psíquica insuportável (psychache). A impulsividade, portanto, atua como um catalisador que transforma a ideação em ato, muitas vezes sem um planejamento prévio extenso.
Zacheo, Cardoso e Grigoleto Netto (2026) reforçam que o impacto do suicídio nessa fase é devastador, pois interrompe um ciclo vital em pleno desenvolvimento. A identificação clínica dessa vulnerabilidade deve ser uma prioridade na anamnese médica. Quando o profissional de saúde compreende que a biologia do adolescente favorece a resposta imediata ao sofrimento, a estratégia de “restrição de meios” (como o controle de medicamentos e acesso a armas em casa) torna-se uma intervenção médica de urgência e alta eficácia.
5.2. O PAPEL DA APS COMO “REDE DE SEGURANÇA”: VÍNCULO E LONGITUDINALIDADE
Diferente de um ambiente hospitalar de emergência, onde o contato é pontual e focado na crise aguda, a Atenção Primária à Saúde (APS) oferece o atributo da longitudinalidade. Sousa, Souza e Campos Filho (2025) argumentam que a Medicina de Família e Comunidade (MFC) permite a construção de um vínculo terapêutico que se estende ao longo do tempo. Esse conhecimento prévio do histórico familiar e social do jovem permite que o médico de família detecte sinais sutis de retraimento ou mudança de comportamento que um plantonista jamais notaria.
A eficácia da APS na redução do risco de autoextermínio também está ligada à resolutividade ginecológica e mental no território. Rebolho et al. (2021) trazem evidências de que médicos com formação em MFC encaminham menos pacientes para a rede secundária, pois possuem competência para manejar o sofrimento psíquico leve e moderado no contexto da comunidade. Isso reduz a estigmatização do adolescente, que recebe cuidado em um ambiente familiar e menos hostil que um hospital psiquiátrico.
Além disso, o médico de família atua como um sentinela no território. Ao visitar o domicílio e observar a dinâmica familiar “in loco”, a equipe da Estratégia Saúde da Família (ESF) identifica fatores de risco invisíveis no consultório, como a negligência, a violência doméstica ou a falta de suporte parental. Como apontam Oliveira et al. (2025), a coordenação do cuidado pela APS garante que o adolescente não se perca nos “vãos” do sistema de saúde após uma crise, mantendo o acompanhamento pós-alta hospitalar de forma persistente.
5.3. DETERMINANTES SOCIAIS E A ERA DIGITAL
O sofrimento psíquico contemporâneo está intrinsecamente ligado aos determinantes sociais de saúde. Guimarães (2025) cunhou a expressão “minha cabeça tá barulhenta” para descrever a sobrecarga sensorial e emocional de jovens em comunidades periféricas. Esse barulho é composto pela exposição à violência, falta de perspectivas econômicas e a pressão constante das mídias sociais, que atuam como amplificadores de vulnerabilidades preexistentes.
Siqueira et al. (2024) demonstram que o uso problemático de redes sociais está diretamente associado à deterioração da saúde mental juvenil. A cultura da comparação constante, a busca por validação através de algoritmos e o fenômeno do cyberbullying criam um ambiente de isolamento social paradoxal: o jovem está conectado digitalmente, mas emocionalmente desamparado. Almeida e Santos (2021) ressaltam que as pressões estéticas e a distorção da realidade nas plataformas digitais geram um sentimento de inadequação que alimenta a ideação suicida.
O médico de família deve, portanto, investigar a “vida digital” do adolescente como parte do exame clínico. Ignorar o impacto das mídias é ignorar o ambiente onde o jovem passa a maior parte do seu tempo. Os determinantes socioeconômicos, como a pobreza discutida por Silva (2025), somam-se a essa pressão digital, criando um cenário de “vulnerabilidade acumulada”. A intervenção médica, nesse sentido, deve ser política e social, defendendo espaços de lazer e políticas de proteção digital para a juventude.
5.4. DA PREVENÇÃO À POSVENÇÃO E A ÉTICA MÉDICA
A prevenção do suicídio juvenil deve transcender o consultório e ocupar o espaço escolar. Sganzerla (2021) e Maciel e Cecconello (2021) convergem na tese de que a escola é o local onde a prevenção primária ocorre de forma mais natural. Intervenções educativas que ensinam o manejo de emoções e a busca por ajuda são essenciais. Santos et al. (2024) reforçam que educar professores e alunos para identificar sinais de alerta é a forma mais barata e eficaz de suprimir novos casos no território.
No campo das tecnologias, Oliveira Silva de Macedo et al. (2025) mostram que aplicativos de prevenção possuem alta aceitabilidade. Essas ferramentas servem como “primeiro socorro” emocional, oferecendo canais de escuta e planos de segurança personalizados. O desafio para a medicina é integrar essas tecnologias ao fluxo de cuidado da UBS, garantindo que o digital e o presencial se complementem na vigilância do paciente de alto risco.
Por fim, a ética médica no atendimento ao adolescente exige um equilíbrio delicado entre a autonomia do jovem e a necessidade de proteção. O médico deve garantir o sigilo para fortalecer o vínculo, mas tem o dever ético de romper a confidencialidade quando há risco iminente à vida, envolvendo a família de forma acolhedora (Augustin, 2021). A “posvenção” (o cuidado com os sobreviventes após um suicídio consumado) é o último pilar desse manejo, prevenindo o efeito contágio e oferecendo suporte ao luto da comunidade.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo consolidou a evidência de que o suicídio na adolescência é um fenômeno de etiologia multifatorial, onde a biologia do desenvolvimento e os determinantes sociais se entrelaçam de forma complexa. A fragilidade maturacional do córtex pré-frontal, aliada à impulsividade característica da faixa etária, torna o adolescente particularmente suscetível a respostas imediatas e fatais diante do sofrimento psíquico. Ficou demonstrado que a Atenção Primária à Saúde, através da Estratégia Saúde da Família, possui um papel insubstituível na prevenção do autoextermínio. O atributo da longitudinalidade e o vínculo estabelecido pela Medicina de Família e Comunidade permitem um monitoramento territorial que nenhum outro nível de atenção consegue replicar, identificando precocemente os “sinais de alerta” no seio da comunidade.
A era digital emergiu como um determinante crítico. O impacto das mídias sociais na autopercepção e o sofrimento gerado por ambientes virtuais hostis demandam que a anamnese médica atual inclua a investigação da vida digital do paciente. O “sofrimento barulhento” dos jovens brasileiros precisa ser acolhido por equipes que compreendam as pressões estéticas e sociais da contemporaneidade.
A integração entre saúde e educação revelou-se a estratégia de maior custo-benefício. O fortalecimento do Programa Saúde na Escola e a capacitação de agentes comunitários e professores criam uma rede de sentinelas capaz de detectar o risco antes que este evolua para a tentativa, reduzindo a necessidade de intervenções de alta complexidade e o impacto social e emocional do suicídio na comunidade.
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Citação:
FERNANDES, Ana Julia Andreazi; MENEZES, Ana Julia Moreira de; VIEIRA, Henrique Junior; MARTINS, Valentina Valentim Schiave Ballarim; CALVO, Luciana Alvares; ARAUJO, Ana Teresa Silva Maia de. Impacto da saúde da família na saúde mental e nos casos de suicídio em adolescentes. Revista QUALYACADEMICS. Editora UNISV; v.4, n.1, 2026; p. 341-370. ISSN 2965976-0 | D.O.I.: doi.org/10.59283/unisv.v4n1.017
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