A HERANÇA PATRIARCAL: PERSISTÊNCIA E IMPACTOS DA TRADIÇÃO AO PÓS-MODERNISMO
- Laryssa Elissiane de Jesus Silva
- há 6 horas
- 15 min de leitura
THE PATRIARCHAL LEGACY: PERSISTENCE AND IMPACTS FROM TRADITION TO POSTMODERNISM
Informações Básicas
Revista Qualyacademics v.4, n.1
ISSN: 2965976-0
Tipo de Licença: Creative Commons, com atribuição e direitos não comerciais (BY, NC).
Recebido em: 06/05/2026
Aceito em: 07/05/2026
Revisado em: 09/05/2026
Processado em: 11/05/2026
Publicado em: 17/05/2026
Categoria do artigo: Estudo de Revisão
Como citar esse material:
SILVA, Laryssa Elissiane de Jesus. A herança patriarcal: persistência e impactos da tradição ao pós-modernismo. Revista QUALYACADEMICS. Editora UNISV; v.4, n.1, 2026; p. 329-340. ISSN 2965976-0 | D.O.I.:
Autora:
Laryssa Elissiane de Jesus Silva
Graduanda ciências sociais na instituição (Unimontes). Contato: E-mail: larysilva092@gmail.com
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RESUMO
O presente artigo acadêmico propõe uma análise da persistência e dos impactos da prática patriarcal, abordando suas raízes históricas e sua continuidade até a era pós-moderna. A revisão das teorias de Max Weber e Pierre Bourdieu contribui para a compreensão dessa dinâmica, destacando a forma como a dominação se manifesta nas estruturas sociais. A partir da obra Economia e Sociedade de Weber, é possível discutir a dominação como uma forma de poder e como parâmetro histórico do patriarcado. Esse entendimento é enriquecido pela análise presente em A Dominação Masculina de Bourdieu, que ilumina a perpetuação simbólica do patriarcado no cotidiano contemporâneo e sua adaptação em diferentes contextos culturais. A análise evidencia como essas práticas se reproduzem, muitas vezes de maneira inconsciente, na sociedade, sendo moldadas pelas dinâmicas de poder, subordinação e hierarquização. O artigo também aborda como a estrutura patriarcal se adapta e persiste, mesmo diante de uma sociedade que busca promover mudanças, e os desafios enfrentados em relação à igualdade de gênero, as relações de poder e as crenças e valores que sustentam essas estruturas desiguais.
Palavras-chaves: Hierarquia de Gênero; Violência Simbólica; Estrutura Social.
ABSTRACT
This academic article proposes an analysis of the persistence and impacts of patriarchal practices, addressing their historical roots and continuity into the postmodern era. A review of the theories of Max Weber and Pierre Bourdieu contributes to the understanding of this dynamic, highlighting how domination manifests within social structures. Drawing on Weber’s work Economy and Society, it is possible to discuss domination as a form of power and as a historical parameter of patriarchy. This understanding is enriched by the analysis presented in Bourdieu’s Masculine Domination, which illuminates the symbolic perpetuation of patriarchy in contemporary daily life and its adaptation across different cultural contexts. The analysis demonstrates how these practices are reproduced—often unconsciously—within society, shaped by dynamics of power, subordination, and hierarchization. The article also addresses how the patriarchal structure adapts and persists, even within a society striving to promote change, as well as the challenges encountered regarding gender equality, power relations, and the beliefs and values that sustain these unequal structures.
Keywords: Gender Hierarchy; Symbolic Violence; Social Structure.
1. INTRODUÇÃO
A tradição patriarcal, socialmente construída e profundamente enraizada na estrutura da sociedade, representa uma herança de predomínio histórico que se mantém como uma força organizadora nas relações sociais. Essa herança molda as dinâmicas de poder, gênero e as instituições culturais, perpetuando desigualdades e hierarquias. O artigo propõe um diálogo com teóricos clássicos para aprofundar os fundamentos dessas raízes patriarcais, contextualizando-as no cenário contemporâneo. Ao revisar obras como Economia e Sociedade, de Max Weber, e A Dominação Masculina, de Pierre Bourdieu, busca-se revisitar a origem do patriarcado e analisar seus impactos atuais. Weber oferece uma análise das formas de dominação legítima, sugerindo que a sustentação do patriarcado está intimamente ligada às estruturas burocráticas e à aceitação, muitas vezes tácita, de normas culturais por parte dos indivíduos. Como ele observa, "a eficácia das práticas disciplinares é maior quando não são vividas como demandas externas ao sujeito, mas como comportamentos autogerados e autorregulados" (Foucault, 1977, p. 136). Nesse sentido, a internalização de normas patriarcais é fundamental para a manutenção do sistema. Por outro lado, Bourdieu contribui para a reflexão sobre a naturalização das relações de poder baseadas no gênero, destacando como a dominação masculina se torna um fenômeno simbólico, inserido no cotidiano das práticas sociais por meio do conceito de habitus. A dominação não é apenas imposta externamente, mas internalizada de maneira quase invisível, sendo reproduzida nas interações diárias. Dessa forma, as bases teóricas de Weber e Bourdieu oferecem uma revisão crítica das raízes do patriarcado e da maneira como ele se perpetua ao longo da história. A pesquisa investiga como essa tradição patriarcal, institucionalizada ao longo do tempo, persiste nos contextos sociais, políticos e econômicos da pós-modernidade, influenciando ainda as dinâmicas de poder e as relações de gênero no cenário atual.
O objetivo deste estudo é analisar a permanência e os impactos dessa herança patriarcal, buscando uma compreensão mais profunda da temática e oferecendo novas perspectivas sobre o fenômeno. A proposta é ampliar a visão sobre aqueles que, de maneira inconsciente, continuam a reproduzir essas práticas. Nesse sentido, busca-se introduzir uma análise crítica que permita a desconstrução do patriarcado, que sobrevive e se reproduz nas estruturas de poder desde sua ascensão até os dias contemporâneos. Ao reforçar essa provocação, podemos recorrer à reflexão de Butler (2012, p. 1178), que afirma: “aquilo que parece ser algo extremamente individual, ou seja, a vivência de um conjunto de mal-estares no âmbito subjetivo, expressa regularidades que são moldadas por uma dada configuração social”. Isso implica que a reprodução de comportamentos patriarcais não é apenas um reflexo de decisões ou atitudes individuais, mas uma manifestação de regularidades sociais que são internalizadas e naturalizadas pelo sujeito. Esses comportamentos se perpetuam quando são autorregulados por meio de normas simbólicas e culturais, nas quais o indivíduo se torna um reflexo daquilo que é condicionado pela estrutura social.
2. A LEGITIMIDADE DA AUTORIDADE PATRIARCAL: FUNDAMENTOS E PERPETUAÇÃO
Max Weber (1864-1920) é amplamente reconhecido por suas contribuições fundamentais à sociologia moderna. Sua obra Economia e Sociedade é um marco nessa tradição, consolidando-o como um dos grandes pensadores das ciências sociais. Weber se destaca por suas valiosas contribuições teóricas que abrangem diversas áreas, como sociologia, economia, política e cultura, e que proporcionam uma compreensão mais profunda da sociedade moderna. Em sua abordagem sociológica, Weber desenvolve o conceito de sociologia compreensiva, uma ciência que busca entender a ação social por meio de uma interpretação das intenções e significados que os indivíduos atribuem às suas próprias ações. Diferente de uma análise puramente objetiva ou causal, a sociologia interpretativa de Weber enfatiza o caráter subjetivo das ações sociais, considerando que cada indivíduo atribui um sentido único a seus comportamentos, especialmente quando estes são orientados em relação a outros indivíduos.
A "dominação", como conceito mais geral e sem referência a algum conteúdo concreto, é um dos elementos mais importantes da ação social. Sem dúvida, nem toda ação social apresenta uma estrutura que implica dominação. Mas, na maioria de suas formas, a dominação desempenha um papel considerável, mesmo naquelas em que não se supõe isto à primeira vista (Weber., 2004. p. 187).
Segundo Weber, a existência da dominação refere-se à capacidade de exercer obediência a um comando dentro de um contexto social. Essa dinâmica não se restringe apenas à autoridade ou subordinação, mas envolve a relação entre a autoridade e os subordinados, e o alcance dessa autoridade sobre aqueles que a aceitam. A dominação, para Weber, estabelece um processo de legitimação do poder, ou seja, torna-se possível quando os dominados reconhecem e aceitam a autoridade de quem exerce o poder. Em outras palavras, a dominação não é imposta de forma arbitrária, mas se sustenta na aceitação e no reconhecimento, muitas vezes consciente ou inconsciente, por parte dos subordinados.
Para isso, cabe primeiro determinar, mais precisamente, o que para nós significa "dominação" e qual é sua relação com o conceito geral de "poder". Dominação, no sentido muito geral de poder, isto é, de possibilidade de impor ao comportamento de terceiros a vontade própria, pode apresentar-se nas formas mais diversas (Weber., 2004. p. 188).
Assim, Weber argumenta que a dominação está intrinsecamente ligada à relação de autoridade, na qual o subordinado se dispõe a se subordinar à vontade de um líder ou superior. Essa submissão pode ocorrer tanto pela crença na legitimidade do poder exercido, quanto pela necessidade de cumprir um papel social ao obedecer às ordens impostas. Nesse contexto, a dominação se manifesta por meio de diferentes tipos de autoridade, refletindo as variadas formas de legitimação do poder e a aceitação de sua hierarquia pelos subordinados.
Uma posição, também designada pela linguagem corrente como "dominação", pode, entretanto, desenvolver-se tanto nas relações sociais do salão, quanto no mercado, do alto de uma cátedra universitária, à frente de um regimento, numa relação erótica ou caritativa, numa discussão científica ou no esporte. Com um sentido tão amplo do conceito, "dominação" deixaria de ser uma categoria cientificamente útil. (idem )
Para que a dominação funcione de maneira eficaz, é fundamental que se mantenha nas interações e relações de poder, garantindo a perpetuação da subordinação. Assim, nas estruturas de poder, a dominação é um processo dinâmico, que se ajusta constantemente às autoridades em exercício e ao seu contexto histórico-social. A legitimidade da autoridade, no entanto, não é estática; ela pode ser desafiada ou modificada ao longo do tempo. Essas transformações desempenham um papel crucial na organização da sociedade, regulando as relações sociais e assegurando a conservação e preservação das posições sociais. Em outras palavras, esse processo reflete a "vantagem do pequeno número) , onde uma minoria mantém o controle sobre a maioria, perpetuando sua posição privilegiada.
A posição dominante do círculo de pessoas que constitui aquele complexo de dominação, diante das "massas" dominadas, baseia-se, quanto à sua conservação, naquilo que recentemente se vem chamando de "vantagem do pequeno número", isto é, na possibilidade existente para a minoria dominante de comunicar-se internamente com rapidez especial, de dar origem, a cada momento, a uma ação social racionalmente organizada que serve para a conservação de sua posição de poder e de dirigi-la de forma planejada (Weber., 2004. p.196).
Nesse sentido, a eficácia da permanência do poder está diretamente ligada à sua legitimidade, ou seja, quando os dominados não apenas reproduzem, mas também aceitam as imposições da autoridade. Weber identifica três tipos de dominação legítima: tradicional, carismática e racional-legal. Cada uma dessas formas de dominação reflete diferentes maneiras pelas quais o poder se estabelece e é aceito na sociedade. Além disso, Weber enfatiza que esse processo pode ser alterado ou desafiado ao longo do tempo, dependendo da conscientização das massas sobre o contexto político ou social em que estão inseridas, o que pode influenciar a disposição dos indivíduos em questionar ou aceitar a autoridade vigente. “Neste caso, o portador individual do poder de mando está legitimado por aquele sistema de regras racionais, sendo seu poder legítimo, na medida em que é exercido de acordo com aquelas regras.” (Weber., 2004. p. 98).
Na concepção de Weber, a dominação patriarcal se configura como uma forma de autoridade tradicional, cujas raízes remontam a um modelo primitivo e fortemente influenciado pelo contexto familiar e doméstico. Nesse arranjo, o homem é visto como superior e chefe, garantindo seu poder sobre os membros do lar, como esposas, filhos e servos. Essa forma de dominação é sustentada por crenças, costumes e valores históricos, que a tornam uma prática enraizada nas tradições da sociedade. A autoridade patriarcal, portanto, se centraliza na figura do homem, não por imposição direta, mas porque é aceita e reproduzida pelos membros da família, em grande parte devido à normalização dessa dinâmica nas práticas cotidianas e à sua aceitação ao longo do tempo.
Estas normas, no caso da dominação burocrática, são racionalmente criadas, apelam ao senso da legalidade abstrata e baseiam-se em instrução técnica; na dominação patriarcal, ao contrário, fundamentam-se na "tradição"; na crença na inviolabilidade daquilo que foi assim desde sempre. E a significação das normas é nas duas fundamentalmente diferente. Na dominação burocrática é a norma estatuída que cria a legitimação do detentor concreto do poder para dar ordens concretas. Na dominação patriarcal é a submissão pessoal ao senhor que garante a legitimidade das regras por este estatuídas, e somente o fato e os limites de seu poder de mando têm, por sua vez, sua origem em "normas", mas em normas não-estatuídas, sagradas pela tradição (Weber., 2004. p.234).
A obediência pessoal é um elemento central na estrutura de dominação patriarcal, onde o chefe de família exerce uma autoridade direta e pessoal sobre os demais membros, ao contrário das normas impessoais que caracterizam sistemas legais racionais. Essa dinâmica contradiz o modelo patriarcal, que se fundamenta na tradição, pois a obediência não é imposta por regras objetivas, mas sim, sustentada por laços afetivos como lealdade e respeito. Esse vínculo afetivo reforça a ideia de que o chefe de família é não apenas o provedor material, mas também o responsável pela ordem e bem-estar do lar, consolidando seu papel como figura central na organização e harmonia doméstica.
Na dominação patriarcal é a submissão pessoal ao senhor que garante a legitimidade das regras por este estatuídas, e somente o fato e os limites de seu poder de mando têm, por sua vez, sua origem em "normas", mas em normas não-estatuídas, sagradas pela tradição. (idem)
Embora a autoridade esteja no poder, ela não está isenta de agir conforme seus próprios interesses pessoais. No entanto, essa ação é limitada por normas e costumes tradicionais que definem o que é considerado justo em sua liderança. Além disso, os comportamentos que legitimam a autoridade são herdados e devem ser constantemente reproduzidos dentro da estrutura patriarcal. Nesse contexto, espera-se que os subordinados aceitem essas práticas, mantendo a prevalência do poder e reforçando a continuidade da dominação. “Assim formou-se quase por toda parte uma ordem juridicamente lábil mas de fato muito estável, que restringe a esfera da livre arbitrariedade e graça do senhor em favor da esfera da vinculação à tradição.” (Weber., 2004. p. 239).
Na dominação patriarcal, a estrutura social é organizada de forma hierárquica, com o chefe de família no topo, exercendo poder sobre os demais membros da casa, como filhos, esposas, empregados e outros dependentes. A família, nesse contexto, se configura como uma unidade política e econômica, centralizada em uma autoridade que é responsável por administrar as necessidades e preferências do grupo. O chefe de família, portanto, desempenha um papel crucial na definição das dinâmicas de poder e na manutenção da ordem dentro dessa estrutura.
Originalmente, a administração patrimonial cuidava especificamente das necessidades puramente pessoais, sobretudo privadas, da gestão patrimonial do senhor. A obtenção de um domínio "político", isto é, do domínio de um senhor sobre outros senhores, não submetidos ao poder doméstico, significa então a agregação ao poder doméstico de outras relações de dominação, diferentes, do ponto de vista sociológico, somente em grau e conteúdo, mas não na estrutura (Weber, 2004. p.240).
Desse modo, na obra Economia e Sociedade de Weber, destaca-se a legitimidade do poder patriarcal por meio da tradição, que, por sua vez, influencia as dinâmicas sociais nas esferas política, econômica e cultural. Weber ressalta que, ao contrário de outras formas de dominação (legal ou carismática), a dominação tradicional está profundamente enraizada por meio de práticas, e sua continuidade é difícil de ser superada, pois ela possui uma base estrutural consolidada.
3. O HABITUS PATRIARCAL E SUA CONTRIBUIÇÃO NAS DINÂMICAS SOCIAIS
Pierre Bourdieu oferece uma análise sociológica importante sobre as relações de poder entre os gêneros, por meio de sua teoria da dominação masculina. Ele argumenta que o patriarcado está profundamente enraizado nas estruturas sociais, simbólicas e culturais, onde a desigualdade de gênero não é apenas resultado de imposições diretas, mas da naturalização da submissão feminina e da superioridade masculina. Essa dinâmica é internalizada de tal forma que, muitas vezes, a subordinação das mulheres e a prevalência dos homens são vistas como algo natural e inevitável dentro da sociedade.
Como estamos incluídos, como homem ou mulher, no próprio objeto que nos esforçamos por aprender incorporamos, sob a forma de esquemas inconscientes de percepção e de apreciação, as estruturas históricas da ordem masculina; arriscamos- nos, pois, a recorrer para pensar a dominação masculina, a modos de pensamento que são eles próprios produto da dominação (Bourdieu, 2002. p. 6).
O autor utiliza o conceito de habitus para explicar como a dominação masculina se perpetua ao longo do tempo. O habitus refere-se ao conjunto de disposições adquiridas ao longo da vida, que moldam o pensamento, comportamento e as percepções dos indivíduos sobre o mundo. Desde o desenvolvimento inicial, meninos e meninas são condicionados a seguir padrões comportamentais que reforçam a hierarquização de gênero. Essas desigualdades se manifestam de maneira sutil, sendo gradualmente naturalizadas pelos indivíduos, que passam a internalizar essas normas como algo óbvio e inevitável em suas interações cotidianas.
A divisão entre os sexos parece estar “na ordem das coisas”, como se diz por vezes para falar do que é normal, natural, a ponto de ser inevitável: ela está presente, ao esmo tempo, em estado objetivado nas coisas (na casa, por exemplo, cujas partes são todas “sexuadas”), em todo o mundo social e, em estado incorporado, nos corpos e nos habitus dos agentes, funcionando como sistemas de esquemas de percepção, de pensamento e de ação (Bourdieu, 2002. p. 8).
Os principais fatores que sustentam a dominação masculina são a violência simbólica e a naturalização da hierarquia de gênero. Essa forma de dominação não é imposta pela força física, mas se mantém porque é aceita de maneira inconsciente pelos dominados. No caso das mulheres, muitas vezes elas mesmas se colocam em uma posição de subordinação ao internalizar padrões de comportamento que reforçam a desigualdade, tornando-se, assim, “seus maiores algozes sem perceberem que estão sendo oprimidas”.(Bourdieu, 2002). Esse processo ocorre por meio de influências culturais e sociais, que perpetuam a submissão feminina e a superioridade masculina, consolidando a hierarquia de gênero como algo natural e inevitável. “O poder simbólico não pode se exercer sem a colaboração dos que lhe são subordinados e que só subordinam a ele porque o constroem como poder.” (Bourdieu, 2002.p. 26).
Bourdieu propõe que a sociedade é organizada em diferentes campos — como o político, econômico, acadêmico, cultural, entre outros — e que todos eles são marcados por uma hierarquia de gênero. Historicamente, esses espaços têm sido dominados por homens, especialmente nas posições de poder. As mulheres, por sua vez, são frequentemente excluídas ou desvalorizadas nesses campos, o que reforça a estrutura de dominação masculina e dificulta o avanço do universo feminino. Dessa forma, essas hierarquias não apenas limitam a participação das mulheres, mas também perpetuam a desigualdade entre os gêneros ao longo do tempo.
Assim, a disposições (habituus) são inseparáveis das estruturas (habitudines, no sentido de Leibniz) que as produzem e as reproduzem, tanto nos homens como as mulheres, e em particular de toda a estrutura das atividades técnico-rituais, que encontra seu fundamento último na estrutura do mercado de bens simbólicos (Bourdieu,2002. p. 27).
Ao analisar o corpo, Bourdieu conclui que o corpo feminino se torna uma das principais "iscas" da dominação simbólica. Desde a maneira como as mulheres devem se portar, agir, vestir e se apresentar socialmente, cada um desses elementos carrega significados que reforçam a submissão feminina dentro da estrutura patriarcal. A repressão da sexualidade, os padrões estéticos impostos e a expectativa de que a mulher ceda às vontades masculinas de forma discreta, são formas sutis, mas eficazes, que contribuem para a perpetuação do patriarcado. Essas normas sociais moldam e restringem o comportamento feminino, consolidando a dominação masculina e garantindo sua sobrevivência ao longo do tempo.
E excluídas, se assim podemos dizer, a priori, em nome do princípio (tácito) da igualdade na honra, que exige que o desafio, que honra quem o faz, só seja valido se dirigido a um homem (em oposição a uma mulher) e a um homem honrado, capaz de dar uma reposta que, por representar uma forma de reconhecimento, é igualmente honrosa. A circularidade perfeita do processo indica que se trata de uma partilha arbitraria (Bourdieu, 2002. p. 31).
Nos escritos de Bourdieu, destaca-se a persistência da dominação masculina, mesmo em uma sociedade que avançou nos direitos das mulheres. Apesar das conquistas, essa dominação continua a existir, muitas vezes de forma discreta, devido à ineficácia das instituições e das leis em modificar o habitus e os valores simbólicos profundamente enraizados. Embora as mulheres tenham conquistado maior espaço em diversos setores da sociedade, ainda enfrentam obstáculos sutis e imperceptíveis, que se manifestam em diferentes campos, inclusive no contexto familiar. Essa resistência invisível à mudança continua a reforçar a desigualdade de gênero, perpetuando a hierarquia patriarcal de maneira silenciosa, mas eficaz. “Enfim, as próprias mudanças da condição feminina obedecem sempre a lógica do modelo tradicional entre o masculino e feminino.” (Bourdieu,2002. p.56).
Assim, Bourdieu oferece uma análise sobre como é reproduzido nas dinâmicas sociais a dominação masculina através das práticas cotidianas, e como existe uma naturalização dessa subordinação. Pierre destaca a manifestação do poder de forma desigual nas estruturas e é um comportamento simbólico que são internalizados pelas pessoas, especialmente por meio do conceito de habitus, que revigora essa reprodução em diferentes contextos. O autor, então, apresenta como nas estruturas sociais, a dominação é visto como algo natural, quando, na verdade, é uma construção social, compartilhando uma crítica sobre essa opressão disfarçada em sua representação.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao analisar os dois teóricos, acessa-se uma visão profunda sobre o patriarcado, desde sua origem até os primeiros indícios de sua persistência, que vinculam o tipo de dominação tradicional ao processo de dominação masculina. Esse processo de perpetuação envolve a adoção de comportamentos históricos, transferidos e adaptados ao pós-modernismo. Percebe-se como essa prática é ampliada de forma simbólica pelas sociedades, frequentemente de maneira sutil e inconsciente, tanto por homens quanto por mulheres, que reproduzem essas dinâmicas sem plena consciência de sua atuação. É fundamental manter vigilância sobre tais ações que consolidam essa problemática e propor uma revisão de hábitos que sustentam a existência do patriarcado. Além disso, essa prática afeta também os homens, que enfrentam a repressão emocional imposta pela sociedade, que exige deles uma suposta "força" e impede a demonstração de vulnerabilidade.
Embora tenham ocorrido avanços sociais, a dominação patriarcal ainda é claramente perceptível em diversas áreas, como na sub-representação feminina em cargos de liderança, onde a influência masculina continua predominante. Isso demonstra como o estereótipo patriarcal se adapta às mudanças sociais, moldando as estruturas de poder e perpetuando a desigualdade de gênero à medida que a sociedade avança. Portanto, essa imposição social se mantém eficaz dentro da estrutura patriarcal, tornando-se necessário superar esses obstáculos por meio de práticas que desconstruam essa hierarquização. A implementação de políticas públicas que abordem os impactos sociais dessa dominação é crucial para estabelecer dinâmicas mais equitativas entre os gêneros nas diversas esferas sociais, promovendo harmonia e avanço. Estratégias de mudança devem começar pela educação infantil, reformulando os valores patriarcais por meio do ensino pedagógico, a fim de criar novas formas de pensar e agir que favoreçam a igualdade de gênero desde a base da formação social.
5. REFERÊNCIAS
BOURDIEU, P. A dominação masculina. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 4. Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
FOUCAULT, M. A microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1977.
ONU Mulheres Brasil. Espaço de liderança para as mulheres. [S.l.], [s.d.]. Disponível em: (https://www.onumulheres.org.br/noticias/espaco-de-lideranca-para-as-mulheres/). Acesso em: 17 mar. 2025.
WEBER, M. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. 4.ed. Brasília: Editora UnB, 2004.
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SILVA, Laryssa Elissiane de Jesus. A herança patriarcal: persistência e impactos da tradição ao pós-modernismo. Revista QUALYACADEMICS. Editora UNISV; v.4, n.1, 2026; p. 329-340. ISSN 2965976-0 | D.O.I.:
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