ENTRE ESTÍMULO E SOBRECARGA: COR, EXPERIÊNCIA VISUAL E NEURODIVERSIDADE NO DESIGN
- Julian Medeiros da Silva
- há 2 dias
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BETWEEN STIMULATION AND OVERLOAD: COLOR, VISUAL EXPERIENCE, AND NEURODIVERSITY IN DESIGN
Informações Básicas
Revista Qualyacademics v.4, n.2
ISSN: 2965976-0
Tipo de Licença: Creative Commons, com atribuição e direitos não comerciais (BY, NC).
Recebido em: 28/08/2026
Aceito em: 29/08/2026
Revisado em: 29/08/2026
Processado em: 30/08/2026
Publicado em: 31/08/2026
Categoria do artigo: Estudo de Revisão
Como citar esse material:
SILVA, Julian Medeiros da. Entre estímulo e sobrecarga: cor, experiência visual e neurodiversidade no design. Revista QUALYACADEMICS. Editora UNISV; v.4, n.2, 2026; p. 05-28. ISSN 2965976-0 | D.O.I.:
Autor:
Julian Medeiros da Silva
Graduando em Cinema na UFSC – Contato: julianmedeirosdasilva@gmail.com
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RESUMO
Este artigo discute a relação entre cor, experiência visual e neurodiversidade no campo do design, com ênfase nas experiências sensoriais associadas ao autismo. A pesquisa é qualitativa, bibliográfica, de natureza exploratória e caráter crítico-interpretativo, baseada em revisão bibliográfica narrativa e análise comparativa de estudos sobre processamento sensorial, função visual, iluminação, cor e ambientes sensorialmente responsivos. A análise diferencia sensibilidade, preferência, resposta comportamental e desempenho, evitando que esses fenômenos sejam tratados como equivalentes ou convertidos em recomendações cromáticas universais. A partir da literatura selecionada, propõe-se o Modelo de Acessibilidade Cromática Responsiva, estruturado em quatro propriedades: previsibilidade, hierarquia informacional, controle e flexibilidade contextual. O modelo considera ainda variáveis como matiz, saturação, luminosidade, contraste, área, repetição, iluminação, movimento, tarefa e condições de uso. Argumenta-se que a acessibilidade cromática não deve ser compreendida como a escolha de uma paleta específica para pessoas autistas, mas como uma característica de sistemas capazes de acomodar diferentes experiências perceptivas. Conclui-se que o design cromático inclusivo deve conciliar consistência e flexibilidade, preservando a função informacional e a expressividade estética sem transformar diferenças individuais em prescrições universais.
Palavras-chave: cor; neurodiversidade; autismo; processamento sensorial; design inclusivo.
ABSTRACT
This article discusses the relationship between color, visual experience, and neurodiversity in design, with particular emphasis on sensory experiences associated with autism. The research is qualitative, bibliographical, exploratory, and critical-interpretive, based on a narrative literature review and comparative analysis of studies on sensory processing, visual function, lighting, color, and sensory-responsive environments. The analysis distinguishes sensitivity, preference, behavioral response, and performance, avoiding the treatment of these phenomena as equivalent or their conversion into universal chromatic recommendations. Based on the selected literature, the article proposes the Responsive Chromatic Accessibility Model, structured around four properties: predictability, information hierarchy, control, and contextual flexibility. The model considers variables such as hue, saturation, lightness, contrast, area, repetition, lighting, movement, task, and conditions of use. The article argues that chromatic accessibility should not be understood as the selection of a specific color palette for autistic people, but as a characteristic of systems capable of accommodating different perceptual experiences. It concludes that inclusive chromatic design should balance consistency and flexibility while preserving informational function and aesthetic expressiveness.
Keywords: color; neurodiversity; autism; sensory processing; inclusive design.
1. INTRODUÇÃO
O design frequentemente parte da figura abstrata de um usuário médio. Essa abstração pode facilitar decisões projetuais, mas se torna problemática quando diferenças perceptivas são tratadas como exceções. A neurodiversidade oferece uma possibilidade de questionar essa universalização, sobretudo em projetos que envolvem experiências sensoriais. Pesquisas sobre autismo identificam diferenças no processamento sensorial e visual, embora a expressão dessas diferenças varie amplamente entre indivíduos (MARCO et al., 2011; BAKROON; LAKSHMI-NARAYANAN, 2016).
Estudos recentes sobre ambientes sensorialmente responsivos também identificam iluminação, cor, acústica, textura e organização espacial como fatores relevantes para o bem-estar de pessoas autistas (KERAMATI; ZAKERI, 2026). A partir disso, este artigo pergunta: como o design pode considerar diferenças de experiência visual sem transformar a neurodiversidade em um catálogo de preferências cromáticas?
O objetivo é discutir cor, estímulo e sobrecarga a partir de uma perspectiva crítica e não normativa e, a partir da literatura selecionada, propor um modelo teórico projetual para orientar decisões cromáticas mais responsivas à variabilidade dos usuários. Neste artigo, “neurodiversidade” é empregado como enquadramento conceitual, enquanto a evidência empírica discutida se concentra majoritariamente em estudos sobre autismo.
Essa distinção é necessária para evitar que resultados produzidos com populações específicas sejam apresentados como evidência direta sobre todas as pessoas neurodivergentes. Do mesmo modo, o artigo não procura definir uma paleta correta para pessoas autistas. Ao contrário, questiona a própria necessidade de uma paleta universal.
O termo responsivo, utilizado para caracterizar a proposta, não significa que o sistema precise adaptar-se automaticamente ao usuário. Refere-se à capacidade projetual de considerar variação de experiência, manter relações informacionais compreensíveis e oferecer possibilidades de ajuste quando diferentes condições de uso ou diferentes usuários assim exigirem. A acessibilidade cromática é, portanto, tratada como uma propriedade relacional do sistema, e não como uma característica intrínseca de determinadas cores.
2. METODOLOGIA E PROCEDIMENTOS
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, bibliográfica, de natureza exploratória e caráter crítico-interpretativo. Adota-se uma revisão bibliográfica narrativa, complementada pela análise comparativa de estudos de revisão e de pesquisas empíricas previamente publicadas. O objetivo metodológico não é estimar um efeito médio da cor sobre pessoas autistas nem produzir uma paleta universalmente recomendada, mas organizar criticamente evidências heterogêneas e convertê-las em uma estrutura de perguntas e critérios que possa orientar decisões de design.
A pesquisa foi desenvolvida em três etapas articuladas: (1) constituição e organização do corpus bibliográfico; (2) análise comparativa dos conceitos, resultados e limitações presentes nas fontes selecionadas; e (3) síntese teórico-projetual em um modelo de acessibilidade cromática responsiva. A terceira etapa não corresponde à validação de um instrumento nem à formulação de um conjunto de regras universais. O modelo é apresentado como uma proposta conceitual derivada da literatura e destinada a orientar a formulação de hipóteses e decisões de projeto que posteriormente possam ser testadas empiricamente.
2.1. CONSTITUIÇÃO E ORGANIZAÇÃO DO CORPUS
O corpus foi selecionado por pertinência temática direta ao problema de pesquisa, contemplando quatro conjuntos de fontes: (a) estudos sobre processamento sensorial e função visual no autismo; (b) revisões sobre iluminação, cor e experiência sensorial; (c) revisões sobre princípios de design para ambientes amigáveis ao autismo; e (d) estudos empíricos utilizados para discutir especificamente controle e respostas a estímulos sensoriais.
No primeiro conjunto, Marco et al. (2011) e Bakroon e Lakshminarayanan (2016) são utilizados para contextualizar diferenças de processamento sensorial e aspectos da função visual descritos na literatura sobre autismo. No segundo, Zaikina et al. (2026) é utilizada por sintetizar evidências sobre iluminação e cor em pessoas com transtorno do espectro autista e por explicitar limitações da literatura. No terceiro, Keramati e Zakeri (2026) é utilizada para discutir princípios de design sensorial em ambientes amigáveis ao autismo. No quarto, Unwin, Powell e Jones (2022) é mobilizado como exemplo de investigação empírica sobre a relação entre controle das alterações sensoriais e respostas comportamentais. As fontes não são tratadas como evidências equivalentes.
Estudos de revisão são utilizados para avaliar tendências e limitações gerais da literatura; estudos sobre processamento sensorial são utilizados para estabelecer possibilidades de diferença perceptiva; e estudos empíricos específicos são utilizados apenas dentro das condições em que seus resultados foram produzidos. Essa distinção evita que achados de contextos diferentes sejam combinados como se constituíssem uma única evidência causal. A seleção é intencional e orientada pelo problema de pesquisa.
Portanto, o corpus não constitui revisão sistemática da produção científica sobre cor e neurodiversidade e não pretende representar exaustivamente todas as abordagens existentes. As conclusões devem ser compreendidas como uma síntese crítica do conjunto de referências selecionado.
2.2. PROCEDIMENTO DE ANÁLISE
A análise foi organizada em quatro categorias principais: sensibilidade, preferência, resposta comportamental e desempenho. Essas categorias foram mantidas separadas porque descrevem fenômenos distintos. Sensibilidade refere-se à forma como um estímulo pode ser experienciado ou processado; preferência corresponde a uma avaliação favorável ou desfavorável; resposta comportamental diz respeito a alterações observáveis associadas à situação; e desempenho corresponde à execução de uma tarefa ou objetivo funcional.
Em seguida, foram examinadas quatro propriedades recorrentes na literatura e relevantes para o design: previsibilidade, hierarquia informacional, controle e flexibilidade contextual. A análise procurou identificar, para cada propriedade, qual problema de projeto ela ajuda a formular, quais evidências a sustentam e quais limites impedem sua transformação em regra universal. O procedimento também incorporou três grupos de variáveis contextuais: condições físicas do estímulo, tarefa e usuário.
Entre as condições físicas foram considerados matiz, saturação, luminosidade, contraste, área, repetição, iluminação e movimento. A tarefa corresponde ao objetivo que o usuário precisa realizar no sistema. Usuário corresponde à variabilidade individual que impede a conversão de médias de grupo em prescrições para indivíduos específicos.
A análise seguiu uma sequência interpretativa: primeiro identificar o que a fonte efetivamente demonstra; depois delimitar as condições em que o resultado foi obtido; por fim, formular a implicação possível para o design. Quando uma conclusão decorre diretamente da literatura, ela é apresentada como evidência. Quando resulta de uma passagem interpretativa para o projeto, é apresentada como inferência ou proposição projetual.
2.3. CONSTRUÇÃO DO MODELO DE ACESSIBILIDADE CROMÁTICA RESPONSIVA
A partir da análise comparativa da literatura revisada, foi formulado o Modelo de Acessibilidade Cromática Responsiva (MACR), estruturado em quatro propriedades analíticas articuladas: previsibilidade, hierarquia informacional, controle e flexibilidade contextual. O modelo não é apresentado como uma descoberta empírica ou como uma teoria validada experimentalmente por este estudo. Sua contribuição consiste na sistematização e articulação de princípios identificados na literatura, reorganizados em torno de uma questão específica de projeto: como desenvolver sistemas cromáticos capazes de acomodar diferentes formas de experiência sensorial sem converter a neurodiversidade em uma configuração cromática única e normativa.
As quatro propriedades foram definidas a partir da convergência entre os estudos analisados, considerando tanto características perceptuais e sensoriais quanto aspectos relacionados à interação, à comunicação visual e à adaptação às condições de uso. O modelo pode ser utilizado como uma estrutura analítica para orientar decisões de projeto, avaliação de alternativas e desenvolvimento de protótipos.
Quadro 1 - Propriedades do Modelo de Acessibilidade Cromática Responsiva.
Propriedade | Questão orientadora de projeto | Aspectos a observar |
Previsibilidade | Os sinais visuais estabelecem relações compreensíveis e suficientemente estáveis ao longo da experiência? | Consistência no uso das cores, posição dos elementos, estados visuais, transições e correspondência entre sinais e funções. |
Hierarquia informacional | Os elementos relevantes podem ser identificados sem que diferentes estímulos disputem atenção simultaneamente? | Contraste, agrupamento, diferenciação, redundância, prioridade visual e densidade de informação. |
Controle | O usuário dispõe de possibilidades para evitar, modular ou ajustar estímulos potencialmente desconfortáveis? | Modos alternativos de apresentação, ajuste de contraste, redução de movimento, configurações personalizáveis e alternativas de interação. |
Flexibilidade contextual | A solução permanece funcional e adequada diante de mudanças na tarefa, no ambiente e nas condições de uso? | Iluminação, dispositivo, tamanho da tela ou suporte, duração da exposição, ambiente, contexto da tarefa e variabilidade individual. |
Fonte: Elaborado pelo autor (2026).
O quadro não deve ser interpretado como uma escala de pontuação, uma classificação de usuários ou um checklist universal de acessibilidade. Sua finalidade é explicitar questões que podem orientar a análise de sistemas cromáticos e apoiar processos de concepção, avaliação e prototipagem. Dessa forma, as propriedades não estabelecem valores ideais de cor nem determinam uma combinação cromática que deva ser aplicada indistintamente a pessoas autistas ou a outros grupos neurodivergentes.
As quatro propriedades constituem dimensões analíticas relacionadas, porém não intercambiáveis. Um sistema pode apresentar elevado grau de previsibilidade e, simultaneamente, oferecer poucas possibilidades de controle ao usuário. Da mesma forma, pode disponibilizar mecanismos de personalização sem estabelecer uma hierarquia informacional suficientemente clara. A avaliação, portanto, não depende da presença isolada de uma propriedade, mas da maneira como diferentes dimensões se articulam em determinada situação de uso.
A temporalidade é considerada uma dimensão transversal ao modelo. Em interfaces digitais, sistemas interativos, animação e audiovisual, a experiência cromática não se restringe à composição estática de uma paleta. A percepção e a interpretação das cores podem ser influenciadas pela duração da exposição, velocidade das transições, frequência de repetição, alterações de estado, movimento e relação temporal entre diferentes estímulos. Uma mesma configuração cromática pode, consequentemente, produzir demandas sensoriais distintas quando apresentada de forma estática ou dinâmica, em diferentes durações ou intensidades de mudança.
Nesse sentido, a acessibilidade cromática responsiva é compreendida não como a seleção de uma “paleta acessível” universal, mas como uma abordagem de projeto orientada pela capacidade de adaptação do sistema às condições de uso e à variabilidade da experiência. O foco desloca-se, portanto, da busca por uma solução cromática única para a construção de sistemas que ofereçam relações visuais compreensíveis, hierarquia informacional, possibilidades de controle e adequação contextual.
O modelo proposto constitui, assim, uma estrutura conceitual para orientar decisões de projeto, e não uma prescrição normativa. Sua aplicação deve considerar as características específicas do artefato, do ambiente, da tarefa e dos usuários envolvidos. A validação de sua efetividade, bem como a investigação de possíveis relações entre suas propriedades e diferentes respostas perceptuais ou comportamentais, permanece como possibilidade para estudos empíricos posteriores.
2.4. APLICAÇÃO CONCEITUAL
A aplicação apresentada no artigo é de natureza demonstrativa e conceitual. O modelo é relacionado a diferentes contextos de design - especialmente interfaces, ambientes físicos, informação visual e animação - para verificar se suas propriedades permitem formular perguntas distintas para situações distintas. Não foram utilizados participantes, questionários, testes de preferência, medidas de desempenho ou observação comportamental nesta etapa. Consequentemente, a aplicação não constitui experimento, estudo de caso ou validação empírica do modelo. Sua finalidade é demonstrar a capacidade organizadora da estrutura proposta e explicitar como uma decisão cromática pode ser analisada em relação à tarefa, ao sistema e às condições de uso.
2.5. TRATAMENTO DAS EVIDÊNCIAS E LIMITES DE INFERÊNCIA
Os resultados de pesquisas anteriores são empregados como evidências secundárias e permanecem vinculados às condições dos estudos originais. Uma associação entre determinada configuração visual e uma resposta observada não é convertida automaticamente em causalidade geral. Da mesma forma, resultados encontrados em amostras específicas não são generalizados para todas as pessoas autistas ou para todas as situações de design. Essa cautela é especialmente importante porque sensibilidade, preferência, comportamento e desempenho podem divergir.
Uma pessoa pode relatar desconforto sem apresentar prejuízo mensurável de desempenho; outra pode preferir uma configuração sem que essa preferência implique necessidade funcional; e uma terceira pode apresentar alteração comportamental diante de determinado estímulo sem que isso permita identificar uma regra cromática universal. A passagem da evidência científica para a recomendação de design é, portanto, tratada como uma etapa distinta. A literatura fornece elementos para formular hipóteses e identificar variáveis relevantes; a decisão projetual precisa considerar o contexto concreto e, quando possível, ser submetida a avaliação com usuários.
2.6. LIMITAÇÕES METODOLÓGICAS
A principal limitação do estudo decorre de seu caráter bibliográfico e conceitual. O artigo não produz dados primários e, portanto, não pode demonstrar causalidade entre propriedades cromáticas e respostas sensoriais, comportamentais ou de desempenho. Também existem limitações na própria literatura utilizada.
As fontes apresentam diferentes desenhos de pesquisa, amostras, medidas e condições experimentais, e a revisão de Zaikina et al. (2026) evidencia que ainda há quantidade limitada de estudos considerados suficientemente robustos para uma síntese. A revisão de Keramati e Zakeri (2026), por sua vez, demonstra a amplitude do campo sensorial, mas não permite isolar a contribuição da cor de outros componentes ambientais.
Outra limitação é a predominância de estudos centrados no autismo para sustentar uma discussão enquadrada pelo conceito mais amplo de neurodiversidade.
Por isso, o artigo emprega “neurodiversidade” como enquadramento conceitual, enquanto evita extrapolar automaticamente resultados específicos sobre autismo para todas as pessoas neurodivergentes. Por fim, o Modelo de Acessibilidade Cromática Responsiva ainda não foi validado por aplicação empírica, avaliação de especialistas ou teste de confiabilidade. Sua contribuição deve ser entendida como uma síntese teórico-projetual inicial, cuja utilidade precisa ser investigada em pesquisas posteriores.
3. NEURODIVERSIDADE E EXPERIÊNCIA SENSORIAL
A experiência sensorial é uma dimensão importante para compreender a relação entre pessoas autistas e ambientes. Marco et al. (2011) revisam achados neurofisiológicos que indicam diferenças de processamento sensorial. Essas diferenças podem envolver múltiplas modalidades e não devem ser reduzidas à visão.
Bakroon e Lakshminarayanan (2016) discutem a função visual no autismo e mostram que a literatura apresenta diferenças em atenção visual, percepção de movimento e outros processos. A consequência para o design não é simplesmente “usar menos estímulo”, mas reconhecer que a mesma configuração pode produzir respostas diferentes. A revisão sistemática de Zaikina et al. (2026) é particularmente útil porque separa sensibilidade, resposta comportamental e preferência. Essa distinção é metodologicamente importante.
Não gostar de uma cor não é equivalente a sofrer sobrecarga diante dela; uma preferência também não significa que uma escolha cromática seja necessária para o funcionamento. A existência de respostas diferentes torna a figura do usuário médio ainda menos adequada. Em vez de buscar um padrão universal, o design pode trabalhar com variabilidade.
4. COR COMO ESTÍMULO
A cor é frequentemente tratada como atributo decorativo, mas sua presença altera relações de atenção, contraste, agrupamento e hierarquia. No design de ambientes, ela atua em conjunto com iluminação, materiais e geometria. A literatura recente identifica cor e luz como fatores que podem afetar comportamento, processamento de informação e bem-estar em pessoas autistas, embora a base de evidências ainda apresenta limitações (ZAIKINA et al., 2026). A intensidade cromática é apenas uma dimensão.
Matiz, luminosidade, saturação, tamanho da área, repetição, contraste com o fundo e velocidade de mudança podem produzir experiências distintas. Uma superfície de cor forte pode ser menos problemática quando é estável e previsível do que um conjunto de estímulos moderados em constante movimento. Isso desloca o debate de “cores fortes versus cores suaves” para uma análise sistêmica. A questão relevante é como diferentes propriedades visuais se combinam em determinada tarefa. A mesma lógica vale para interfaces digitais. Uma cor saturada usada como indicador de ação pode aumentar a saliência de uma função. Em excesso, porém, a multiplicação de sinais pode reduzir a hierarquia. O problema não está na cor em si, mas na organização do sistema. É importante distinguir intensidade de saliência.
Uma cor altamente saturada não é necessariamente o elemento dominante de uma composição; sua saliência depende de área, contraste, posição, repetição e relação com os demais elementos. Do mesmo modo, uma cor pouco saturada pode tornar-se dominante se ocupar grande superfície ou estabelecer contraste forte com o entorno. Essa distinção é especialmente importante em discussões sobre neurodiversidade porque evita atribuir a uma propriedade isolada da cor um efeito que, na prática, emerge da composição. A dimensão temporal acrescenta outra variável. Uma cor estática e uma mudança rápida de cor não constituem o mesmo estímulo. Em interfaces, publicidade, animação e audiovisual, transições, flashes, repetições e mudanças cromáticas podem aumentar a saliência sem necessariamente alterar a paleta básica. O design inclusivo precisa, portanto, considerar não apenas “quais cores” aparecem, mas como elas aparecem no tempo.
Essa perspectiva também evita uma consequência indesejada: retirar cor pode reduzir uma fonte de estímulo e, simultaneamente, retirar informação, identidade ou prazer visual. A acessibilidade cromática não deve ser confundida com neutralização estética. O objetivo é organizar estímulos de modo compreensível e oferecer alternativas quando diferentes usuários responderem de maneiras distintas.
4.1. DIMENSÕES DA EXPERIÊNCIA CROMÁTICA
A análise da cor em contextos de neurodiversidade precisa considerar mais de uma dimensão simultaneamente. Matiz, saturação e luminosidade constituem propriedades distintas, mas a experiência não depende apenas delas isoladamente. Área ocupada, contraste com o fundo, repetição, proximidade entre elementos, iluminação e movimento também participam da configuração visual. Dessa forma, uma recomendação baseada apenas na escolha de determinadas tonalidades corre o risco de ignorar o modo como essas tonalidades são organizadas. A revisão apresentada no artigo sustenta justamente a necessidade de deslocar a pergunta de “qual cor?” para “em que sistema visual, para qual tarefa e sob quais condições?”.
5. SOBRECARGA E COMPLEXIDADE VISUAL
A expressão “sobrecarga sensorial” é frequentemente utilizada para descrever situações em que a quantidade ou intensidade de estímulos ultrapassa a capacidade de processamento confortável de uma pessoa. Para o design, essa noção é útil, mas exige cuidado: não existe uma medida universal de complexidade confortável.
Um ambiente pode ser cromáticamente simples e ainda apresentar alta complexidade devido a padrões, ruídos, iluminação variável, movimento e densidade de informação. Inversamente, um ambiente policromático pode ser previsível e organizado.
A revisão de Keramati e Zakeri (2026), que analisou artigos selecionados de um conjunto inicial de 2.512 estudos, identificou princípios de design sensorial organizados em três categorias. Cor e iluminação aparecem entre os problemas do projeto, ao lado de acústica, segurança e sequenciamento espacial. Isso reforça a necessidade de pensar a cor como parte de um sistema sensorial. A consequência prática é significativa: recomendações cromáticas isoladas provavelmente são insuficientes. Projetos inclusivos precisam considerar a relação entre estímulos e possibilidade de ajuste.
A complexidade visual deve ser entendida como uma propriedade emergente do sistema, e não como simples contagem de cores. Padrões, tipografia, ruído gráfico, movimento, iluminação variável, densidade de objetos e mudanças de estado podem produzir demandas simultâneas. Por isso, uma composição com poucas cores pode ser cognitivamente exigente, enquanto uma composição policromática pode permanecer previsível quando os elementos obedecem a uma hierarquia consistente.
A revisão de Keramati e Zakeri (2026) reforça essa interpretação ao sintetizar princípios de design sensorial a partir de artigos selecionados de um conjunto inicial de 2.512 estudos. Cor e iluminação aparecem junto de acústica, segurança e sequenciamento espacial, mostrando que o problema não pode ser isolado em uma variável cromática.
A contribuição dessa revisão para o presente artigo está justamente na passagem do objeto isolado para o sistema sensorial. Nesse sentido, “sobrecarga” deve ser usada com precisão. O termo não deve funcionar como sinônimo de “muitas cores” nem como justificativa para uma estética visualmente pobre. Para o design, uma pergunta mais produtiva é: quais estímulos competem entre si, quais possuem função comunicacional, quais podem ser previstos e quais podem ser ajustados pelo usuário?
6. ENTRE PREFERÊNCIA E NECESSIDADE
Uma das dificuldades da literatura sobre cor e autismo é distinguir preferência de necessidade. Uma pessoa pode preferir azul, mas isso não significa que azul seja terapêticamente superior ou universalmente confortável. Do mesmo modo, uma aversão individual a vermelho não permite concluir que vermelho deva ser excluído de ambientes destinados a pessoas autistas.
Zaikina et al. (2026) explicitam essa distinção ao organizar resultados em categorias de sensibilidade, comportamento e preferência. A separação é essencial para evitar uma transformação indevida da pesquisa em prescrição. Para o design, isso sugere uma abordagem participativa. Em vez de determinar antecipadamente uma paleta, o projeto pode permitir ajustes, oferecer zonas com diferentes características e utilizar sinais consistentes. O usuário participa da definição do conforto. Essa estratégia também aproxima a neurodiversidade e o design universal.
A acessibilidade deixa de ser um conjunto de adaptações posteriores e passa a ser uma característica de sistemas capazes de acomodar diferentes experiências.
7. COR, HIERARQUIA E CONTROLE
Um dos princípios mais promissores para a relação entre cor e neurodiversidade é o controle. Quando o usuário consegue compreender a função dos elementos e prever o que ocorrerá ao interagir com eles, a experiência pode tornar-se mais manejável. Norman (2013) associa bom design à capacidade de comunicar possibilidades de ação e reduzir confusão. Em uma interface, por exemplo, cores consistentes podem criar expectativas. Em um ambiente físico, cores podem ajudar a diferenciar setores. Em ambos os casos, a cor participa de uma estrutura de previsibilidade. Essa perspectiva desloca a discussão da estética para a affordance e a orientação.
A pergunta não é “qual cor é mais confortável?”, mas “como a cor ajuda o usuário a compreender o ambiente e controlar sua experiência?” Isso não elimina a dimensão sensorial. Ao contrário, integra sensorialidade, informação e ação. Um projeto pode utilizar cores vivas e ainda ser previsível; pode utilizar neutros e causar confusão.
8. NEURODIVERSIDADE COMO CRÍTICA À NORMALIDADE VISUAL
A contribuição mais profunda da neurodiversidade talvez seja epistemológica. Se experiências visuais variam, então conceitos como clareza, simplicidade e conforto não podem ser tratados como propriedades universais. Essa conclusão estabelece uma ponte com a história da cor.
Batchelor (2000) demonstra que a cultura ocidental frequentemente transforma determinadas experiências cromáticas em sinais de excesso ou alteridade. A neurodiversidade permite acrescentar uma pergunta: excesso para quem? Não se trata de afirmar que toda percepção é incomparável. Existem princípios perceptivos, limitações fisiológicas e necessidades de contraste. O argumento é que esses princípios não determinam sozinhos o significado ou a qualidade da experiência. Assim, um design atento à neurodiversidade não busca substituir uma norma por outra. Ele procura criar condições de flexibilidade e participação.
9. IMPLICAÇÕES PARA O DESIGN INCLUSIVO
A revisão permite traduzir os achados em quatro princípios de projeto: previsibilidade, hierarquia informacional, controle e flexibilidade contextual. Eles não devem ser entendidos como checklist universal, mas como perguntas para orientar decisões, protótipos e avaliações. Previsibilidade envolve consistência de sinais e relações visuais.
A hierarquia envolve diferenciar informações segundo sua função, evitando que todos os elementos disputem atenção simultaneamente. Controle envolve possibilidade de ajuste ou modulação. Flexibilidade contextual envolve considerar tarefas, ambiente, dispositivo, duração da exposição e variabilidade individual.
9.1. DESAFIOS DE REPRESENTAÇÃO
Um dos principais desafios é evitar que uma categoria diagnóstica seja transformada em identidade visual fixa. Não existe uma estética única do autismo, tampouco uma experiência cromática única. Diferentes participantes podem produzir recomendações distintas, e essa diferença não constitui necessariamente um fracasso metodológico: ela pode ser parte do fenômeno estudado. O objetivo de um projeto inclusivo não precisa ser produzir uma experiência idêntica para todos. Pode ser criar condições para que diferentes pessoas consigam compreender, utilizar e, quando necessário, ajustar o sistema.
9.2. AVALIAÇÃO DE PROTÓTIPOS
Pesquisas futuras podem avaliar protótipos cromáticos por meio de tarefas concretas. Em vez de perguntar apenas se uma interface é agradável, podem ser observados tempo de localização, erros, compreensão de hierarquia, orientação e desempenho. Entrevistas e relatos posteriores podem contribuir para interpretar esses resultados. A combinação de métodos é importante porque uma pessoa pode executar uma tarefa rapidamente e ainda relatar desconforto; outra pode preferir uma estética diferente, mas apresentar bom desempenho. Preferência, conforto e desempenho devem permanecer como dimensões distintas.
9.3. ACESSIBILIDADE SEM ESTEREÓTIPO
Uma abordagem inclusiva pode oferecer alternativas sem presumir que todos precisarão delas. Modos visuais configuráveis, redução de movimento, sinais redundantes e opções de contraste podem beneficiar diferentes usuários. O sistema passa, assim, a oferecer possibilidades de adaptação em vez de exigir uma única forma de interação.
9.4. COR, CROMOFOBIA E NORMALIDADE VISUAL
A neurodiversidade pode dialogar com a pesquisa sobre cromofobia sem reduzir uma questão à outra. A cromofobia trata de hierarquias culturais da cor; a neurodiversidade trata de variações de experiência e processamento. O ponto de encontro está na crítica à ideia de uma experiência visual única.
Quando uma cultura chama determinado estímulo excessivo, é necessário perguntar se essa avaliação descreve apenas uma propriedade perceptiva ou também expressa uma norma de gosto. A resposta depende do contexto. A neurodiversidade amplia, assim, a discussão sobre normalidade visual sem eliminar a existência de princípios perceptivos ou necessidades funcionais.
9.5. AVALIAR SISTEMAS, NÃO APENAS PALETAS
A acessibilidade cromática deve ser avaliada no sistema completo. Em interfaces, a cor precisa ser considerada junto ao texto, à forma dos controles, à posição dos elementos e ao comportamento das transições. Em ambientes, deve ser analisada junto à iluminação, acústica, circulação, materiais e densidade de objetos. No audiovisual e na animação, deve incluir duração, sequência, velocidade de mudança e repetição.
Essa perspectiva impede que a cor receba uma responsabilidade que pertence ao conjunto do projeto e permite identificar quando uma mudança cromática resolve um problema de orientação, mas não resolve outro relacionado a ruído, movimento ou previsibilidade.
9.6. FLEXIBILIDADE COMO CRITÉRIO DE QUALIDADE
A flexibilidade pode ser compreendida como uma propriedade de qualidade do sistema, e não como concessão excepcional. Modos de alto contraste, redução de movimento, temas alternativos ou configurações de intensidade podem funcionar como camadas de escolha. A personalização não elimina critérios de design; amplia as possibilidades de uso.
9.7. DOCUMENTAÇÃO E CONTEXTO DE USO
Recomendações cromáticas precisam ser acompanhadas das condições nas quais foram observadas. Uma configuração que funciona em uma tela pequena pode produzir outra experiência em uma projeção grande; uma cor percebida em ambiente controlado pode assumir outra aparência sob iluminação variável.
Pesquisas futuras devem registrar, sempre que pertinente, tamanho, distância, iluminação, duração, movimento, contraste, dispositivo e objetivo da interação. Essa documentação aumenta a possibilidade de comparação entre estudos e reduz o risco de transformar resultados situados em regras gerais.
10. DISCUSSÃO
A literatura analisada permite formular uma posição intermediária: a cor pode atuar simultaneamente como estímulo, informação e elemento de identidade, mas seus efeitos dependem das relações entre intensidade, contraste, iluminação, movimento, tarefa e contexto.
A neurodiversidade não oferece uma paleta correta; oferece uma crítica à ideia de que exista apenas uma experiência visual legítima. A principal tensão identificada é entre padronização e variabilidade. Sistemas visuais precisam de consistência para serem compreensíveis, mas usuários não respondem de maneira idêntica aos mesmos estímulos.
A solução não está em abandonar padrões, e sim em distinguir aquilo que precisa permanecer estável daquilo que pode ser configurável. Essa distinção é central para o Modelo de Acessibilidade Cromática Responsiva. Outra tensão aparece entre previsibilidade e flexibilidade.
Previsibilidade pode favorecer orientação e reduzir incerteza, mas uma padronização rígida pode impedir adaptações necessárias a diferentes tarefas e usuários. Da mesma forma, ampliar o controle pode aumentar a autonomia, mas também introduzir escolhas e complexidade adicionais.
O modelo, portanto, não pressupõe que mais previsibilidade, mais controle ou mais redução de estímulos sejam sempre melhores; pressupõe que sua adequação depende da função e do contexto.
Há também uma tensão entre acessibilidade e expressividade estética. Reduzir estímulos pode ser útil em determinadas situações, mas uma estética excessivamente controlada pode retirar informação, identidade e prazer visual.
Não há fundamento, na literatura discutida, para concluir que acessibilidade exija uma aparência neutra. Cor pode comunicar estados, estabelecer ritmo, construir identidade e produzir emoção. O desafio é organizar essas funções de maneira compreensível e oferecer alternativas quando necessário.
A distinção entre sensibilidade, preferência, resposta comportamental e desempenho constitui uma das consequências metodológicas mais importantes do argumento. Uma preferência individual não constitui, por si só, uma necessidade funcional; uma resposta comportamental não demonstra automaticamente desconforto; e uma alteração de desempenho precisa ser interpretada em relação à tarefa e às condições do teste. Essa separação impede que resultados heterogêneos sejam transformados em prescrições simplificadas.
A literatura também sustenta a necessidade de avaliar sistemas, e não apenas paletas. Em uma interface, por exemplo, a cor pode ser redundante com texto, ícone, forma e posição. Essa redundância pode melhorar a compreensão sem exigir que a cor seja reduzida. Em um ambiente, a experiência cromática depende da iluminação, acústica, materiais, circulação e densidade de objetos.
No audiovisual, a temporalidade altera a natureza do estímulo: uma cor estática e uma mudança rápida de cor não são equivalentes. A participação de pessoas neurodivergentes modifica ainda a própria lógica de produção do conhecimento.
Em vez de considerar usuários apenas como destinatários de uma solução produzida externamente, pesquisas podem incorporá-los na definição das tarefas, dos critérios de conforto e das alternativas relevantes. Entrevistas, co-design e testes participativos podem revelar aspectos que uma análise exclusivamente externa não identifica. Nesse sentido, a contribuição deste artigo precisa ser delimitada com precisão.
O texto não apresenta uma nova descoberta empírica sobre cores específicas, não demonstra que determinada cor cause sobrecarga e não propõe uma estética “para autistas”. O que se propõe é uma estrutura teórico-projetual de síntese que reúne dimensões recorrentes da literatura e as organiza especificamente em torno da experiência cromática. Sua originalidade está na articulação entre previsibilidade, hierarquia informacional, controle e flexibilidade contextual e na distinção explícita entre diferentes tipos de resposta ao estímulo.
A principal proposição derivada do modelo pode ser formulada da seguinte maneira: a acessibilidade cromática tende a ser mais robusta quando o sistema oferece consistência suficiente para sustentar compreensão, mas flexibilidade suficiente para acomodar diferentes condições de experiência. Essa formulação é uma hipótese teórico-projetual, e não um resultado experimental do presente estudo. Pesquisas futuras podem testar essa proposição por meio de protótipos e tarefas concretas.
Em interfaces, podem ser comparadas configurações com diferentes níveis de contraste, redundância e possibilidade de personalização. Em ambientes, podem ser avaliadas relações entre cor, iluminação e controle ambiental. No audiovisual e na animação, podem ser investigadas velocidade de transição, duração, repetição, contraste e movimento cromático. Em todos os casos, será importante combinar medidas de desempenho com relatos de experiência e registrar as condições de uso.
A agenda futura deve também ampliar a diversidade das amostras e evitar que evidências predominantemente produzidas com pessoas autistas sejam generalizadas para todas as formas de neurodivergência. A participação dos próprios usuários deve ocorrer desde a formulação dos problemas de pesquisa, e não apenas na etapa final de validação. Assim, o modelo deve ser entendido como framework de síntese teórico-projetual, e não como instrumento validado.
Sua utilidade futura dependerá da capacidade de pesquisadores e designers de testá-lo em contextos concretos, identificar onde suas categorias são suficientes, onde se sobrepõem e onde novas dimensões precisam ser incorporadas. referências cromáticas. Desenvolve-se uma revisão bibliográfica narrativa e crítica, articulando estudos sobre processamento sensorial e função visual com revisões sistemáticas recentes sobre iluminação, cor e ambientes sensorialmente responsivos.
A análise diferencia sensibilidade, resposta comportamental, preferência e desempenho, evitando tratá-los como fenômenos equivalentes. Os resultados da literatura indicam que luz e cor podem influenciar experiência e comportamento, mas também revelam heterogeneidade individual e limitações importantes da evidência disponível para estabelecer parâmetros universais.
Defende-se, portanto, uma abordagem de design baseada em previsibilidade, redundância, flexibilidade e possibilidade de personalização. Conclui-se que acessibilidade cromática não significa eliminar cor ou reduzir expressividade visual, mas projetar sistemas capazes de acomodar diferentes experiências perceptivas.
11. CONCLUSÃO
A relação entre cor e neurodiversidade não pode ser reduzida a uma lista de cores adequadas ou inadequadas. A literatura sustenta a importância de considerar diferenças sensoriais, mas também mostra heterogeneidade e limitações metodológicas. A principal contribuição da neurodiversidade para o design é questionar o usuário universal.
No campo cromático, isso significa substituir a busca por uma paleta correta pela investigação de sistemas que favoreçam orientação, previsibilidade, conforto e controle. Essa abordagem pode também dialogar com a pesquisa sobre cromofobia. Se a cultura visual já estabeleceu hierarquias entre cores, a neurodiversidade introduz outra dimensão crítica: não existe apenas uma maneira legítima de experimentar visualmente o mundo. O design pode reconhecer essa pluralidade sem transformar diferença em diagnóstico ou preferência em regra.
A primeira implicação metodológica é reconhecer que estudos sobre neurodiversidade não devem ser convertidos automaticamente em manuais de estilo. A existência de diferenças médias entre grupos não elimina a variação individual.
Para o design, isso significa que resultados de pesquisas precisam ser tratados como evidências para formular perguntas, e não como respostas prontas para todos os usuários. Também é importante distinguir intensidade de saliência. Uma cor pode possuir alta saturação e, ainda assim, não ocupar posição central em uma composição. Uma cor menos saturada pode tornar-se dominante quando aparece em grande área ou quando contrasta fortemente com o entorno. A experiência visual depende das relações entre propriedades, não de uma única variável. Outra questão é a temporalidade.
Em interfaces animadas, publicidade e audiovisual, a mudança de cor pode constituir estímulo diferente da presença estática. Transições, piscadas, flashes e mudanças rápidas introduzem uma dimensão temporal que não aparece em uma amostra cromática fixa. Pesquisas de design inclusivo precisam considerar essa dimensão. O ambiente também pode produzir somas de estímulos. Uma sala com muitas cores, luzes artificiais, ruído e circulação intensa não pode ser avaliada apenas pela paleta.
A revisão de Keramati e Zakeri (2026) é relevante justamente por reunir princípios que atravessam diferentes componentes ambientais. Isso reforça uma abordagem sistêmica. A distinção entre preferência e sensibilidade possui implicações éticas. Se uma preferência individual for transformada em regra, o projeto pode excluir outras pessoas. Se uma dificuldade sensorial for tratada apenas como gosto, pode-se deixar de oferecer uma adaptação importante. O designer precisa, portanto, investigar o contexto em que uma resposta ocorre.
A participação de pessoas neurodivergentes é outro aspecto central. Estudos sobre acessibilidade não devem falar apenas sobre usuários; devem criar condições para que usuários participem da definição dos problemas. Entrevistas, testes participativos e co-design podem revelar aspectos que uma análise exclusivamente externa não identifica.
Em ambientes educacionais, por exemplo, a cor pode atuar simultaneamente como decoração, orientação e marcador funcional. Uma mesma cor pode identificar uma área, uma atividade ou um objeto. Se o sistema for consistente, ela pode facilitar orientação; se for aplicado de maneira indiscriminada, pode aumentar o ruído visual. A diferença está na organização.
Em interfaces digitais, a situação é semelhante. A cor não deve ser o único sinal de uma função, especialmente quando há diferenças de visão ou processamento. A combinação entre cor, texto, ícone, posição e forma cria redundância. Para a neurodiversidade, essa redundância pode também aumentar a previsibilidade. A noção de controle merece atenção especial.
Permitir redução de animações, escolha de contraste ou modos visuais alternativos pode transformar uma característica fixa em uma experiência ajustável. Isso desloca a responsabilidade do indivíduo para o sistema: em vez de exigir que todos se adaptem ao projeto, o projeto oferece possibilidades de adaptação. Finalmente, a discussão sobre neurodiversidade pode enriquecer o próprio conceito de estética. Se o conforto não é universal, então a estética não deve ser pensada apenas como aparência. Ela envolve relação, ação, previsibilidade e experiência. O design cromático torna-se, nesse sentido, parte de uma ecologia sensorial mais ampla.
12. REFERÊNCIAS
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NORMAN, Donald A. The Design of Everyday Things: Revised and Expanded. New York: Basic Books, 2013.
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Citação:
SILVA, Julian Medeiros da. Entre estímulo e sobrecarga: cor, experiência visual e neurodiversidade no design. Revista QUALYACADEMICS. Editora UNISV; v.4, n.2, 2026; p. 05-28. ISSN 2965976-0 | D.O.I.:
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